Vladimir Melo · Psicologia Clínica
Glossário

Termos da psicologia sistêmica

Definições e referências dos principais conceitos que fundamentam os artigos e a abordagem sistêmica.

A

Autopoiese
Conceito de Maturana e Varela para sistemas vivos que produzem e mantêm continuamente a própria organização, distinguindo-se do ambiente por essa autoprodução, aplicado à família e à terapia sistêmica para pensar como um sistema social também se autoproduz e resiste a mudanças impostas de fora.

C

Cibernética
Ciência formulada por Wiener sobre os mecanismos de controle e comunicação em sistemas (como a informação circula, se processa e regula o comportamento de máquinas, organismos e, na aplicação do grupo de Palo Alto, de famílias), fundamento dos conceitos de retroalimentação e circularidade.
Ciclo de vida familiar
Modelo usado para compreender as transições, tarefas e desafios recorrentes ao longo da trajetória das famílias, como a chegada de filhos, a adolescência ou a saída de casa dos filhos. Essas transições não seguem necessariamente uma sequência única ou linear, podendo variar conforme a história, a cultura e a configuração de cada família.
Circularidade
Princípio que descreve as interações num sistema familiar como uma cadeia de influências recíprocas, e não como uma sucessão linear de causa e efeito: cada resposta de um membro realimenta o comportamento dos demais, formando um ciclo sem um único ponto de origem.
Complementaridade
Padrão de interação descrito por Watzlawick, Beavin e Jackson em que os participantes trocam comportamentos diferentes e encaixados entre si (um ocupa a posição de quem conduz, o outro a de quem responde), cada comportamento reforçando o do outro.
Coparentalidade
Coordenação entre dois ou mais adultos que exercem juntos a função parental: relação entre eles, não entre cada um e a criança. Não depende de conjugalidade: existe dentro de um casamento intacto e continua depois que ele termina.

D

Diferenciação do self
Na teoria dos sistemas familiares de Bowen, capacidade de sustentar um senso de self estável dentro de relações emocionalmente intensas: distinguir pensamento de reatividade emocional e conciliar autonomia com proximidade, sem se fundir nem se isolar dos demais membros do sistema.
Dinâmica conjugal/familiar
Conjunto de padrões de interação, comunicação, papéis e distribuição de poder entre os membros de um casal ou de uma família, que se repetem e se reforçam ao longo do tempo e moldam como o sistema lida com conflito, mudança e cuidado mútuo.
Direitos destrutivos
Na terapia contextual de Böszörményi-Nagy, sensação inconsciente de estar autorizado a ferir alguém no presente como forma de compensar uma injustiça sofrida no passado: a dívida de uma relação sendo cobrada de outra pessoa, que não a deve.
Duplo-vínculo
Situação comunicacional em que uma pessoa recebe duas mensagens contraditórias em níveis diferentes (uma explícita, outra implícita), dentro de um vínculo do qual não pode sair nem comentar a contradição. Bateson e colegas descreveram esse padrão como associado ao sofrimento psíquico grave.

E

Estrutura familiar
Na terapia estrutural de Minuchin, conjunto invisível de regras que organiza como os membros de uma família se relacionam (hierarquia, subsistemas e fronteiras entre eles) e que se repete de forma previsível nas interações cotidianas.
Externalização
Na terapia narrativa de White e Epston, prática de linguagem que separa a pessoa do problema (em vez de "você é ansioso", fala-se em "a ansiedade tenta te convencer de..."), abrindo espaço para a pessoa se relacionar com o problema, em vez de ser definida por ele.

F

Filho parental
Criança ou adolescente que assume, de forma prematura e desproporcional à idade, funções de cuidado, mediação ou suporte emocional que caberiam aos adultos do sistema familiar, cuidando de irmãos, dos pais ou da estabilidade emocional da casa.
Fronteiras
Na terapia familiar estrutural, fronteiras são regras que definem quem participa de cada interação e de que modo, regulando contato, informação, afeto e autonomia entre pessoas, subsistemas e a família e seu contexto.

G

Genograma
Instrumento de mapeamento familiar sistematizado por McGoldrick e Gerson: representação gráfica, por símbolos padronizados, da estrutura, demografia e padrões relacionais de uma família ao longo de pelo menos três gerações.

H

Homeostase familiar
Tendência de um sistema familiar a preservar um estado de equilíbrio interno, resistindo a mudanças que ameaçam os padrões de interação já estabelecidos, inclusive por meio do sintoma de um dos membros, que pode funcionar como regulador dessa estabilidade.

L

Lealdades invisíveis
Na terapia contextual de Böszörményi-Nagy, compromissos relacionais inconscientes regidos por uma contabilidade simbólica de dívidas e créditos (o "livro-razão" familiar) que atravessa gerações e orienta escolhas e sintomas sem que o sujeito perceba.

P

Paciente identificado
Membro da família apontado, pelo próprio sistema, como quem "tem" o problema, enquanto a leitura sistêmica entende o sintoma como expressão de uma dinâmica que envolve toda a família, não uma falha isolada de quem o carrega.
Parcialidade multidirecionada
Na terapia contextual de Böszörményi-Nagy, postura técnica em que o terapeuta se alia, em momentos diferentes da sessão, a cada membro da família (reconhecendo o que cada um carrega de legítimo), em vez de manter neutralidade ou tomar partido fixo de um só lado.
Parentalidade
Função de cuidado, proteção e socialização exercida junto a uma criança ou adolescente, distinta da parentagem biológica ou legal, que a antecede sem garanti-la. Organiza-se em papéis (autoridade, afeto, provisão) que podem se distribuir entre vários adultos, dentro ou fora do núcleo familiar.
Perda ambígua
Termo cunhado pela psicóloga Pauline Boss (1999) para a perda sem confirmação nem ritual: a pessoa está ausente fisicamente mas presente psicologicamente (desaparecimento), ou presente fisicamente mas ausente psicologicamente (demência), e o luto correspondente não se fecha.

R

Rede social pessoal
Conceito de Carlos Sluzki (1997) para o conjunto de vínculos significativos de uma pessoa além da família nuclear, que sustenta funções distintas (companhia social, apoio emocional, orientação, ajuda material e acesso a novos contatos) raramente concentradas num único vínculo.
Retroalimentação
Mecanismo pelo qual a saída (resultado) de uma interação retorna ao sistema como entrada, influenciando o comportamento seguinte: retroalimentação negativa tende a restaurar o equilíbrio anterior; positiva, a amplificar a mudança em curso.

S

Simetria
Padrão de interação descrito por Watzlawick, Beavin e Jackson em que os participantes tendem a espelhar o comportamento um do outro, minimizando a diferença entre eles: o mecanismo por trás da escalada simétrica de um conflito.
Sistema aberto/fechado
Na Teoria Geral dos Sistemas de Bertalanffy, distinção entre sistemas que trocam matéria, energia ou informação com o ambiente (abertos) e os que permanecem isolados dessas trocas (fechados), aplicada à família para descrever o quanto ela permanece permeável a influências externas.
Subsistema
Na terapia estrutural de Minuchin, unidade formada por membros do sistema familiar organizados em torno de geração, sexo, função ou interesse (subsistema conjugal, parental, fraterno), cada uma delimitada por fronteiras que regulam contato e diferenciação.

T

Teoria Geral dos Sistemas
Formulada por Bertalanffy, teoria que descreve princípios organizacionais comuns a sistemas vivos de qualquer nível (célula, organismo, família, sociedade), entendendo cada um como um todo mais que a soma das partes; é o fundamento epistemológico de que a família é um sistema, não uma coleção de indivíduos.
Transgeracionalidade
Transmissão de conteúdos psíquicos e padrões relacionais entre gerações sucessivas (regras, mitos, expectativas e interdições), operando fora da consciência dos envolvidos e sustentando a repetição de configurações familiares ao longo do ciclo de vida.
Tratamento de silêncio
Uso do silêncio como instrumento deliberado de punição dentro de uma relação: fazer o outro sentir o peso da ausência até que ceda, peça desculpas ou volte a se comportar do modo esperado. Diferente da pausa reguladora e da retirada protetora, só termina quando o outro cede.
Triangulação
Na teoria dos sistemas familiares de Bowen, mecanismo pelo qual uma relação de dois membros, sob tensão, recruta um terceiro para reduzir a ansiedade da díade. Em famílias, um filho costuma ocupar essa posição, embora outras configurações também sejam possíveis.