Parentificação: quando os papéis se invertem
Böszörményi-Nagy e Spark descreveram a parentificação como a atribuição, a uma criança, de responsabilidades e de um status que normalmente cabem a um adulto dentro do sistema familiar. O filho parental passa a cuidar de quem deveria cuidar dele: dos irmãos mais novos, das tarefas domésticas, ou do próprio bem-estar emocional dos pais.
Parentificação instrumental e emocional
A literatura distingue duas formas, que podem coexistir. A instrumental envolve tarefas práticas (cozinhar, cuidar de irmãos, administrar a casa). A emocional é mais silenciosa e, segundo Hooper, mais associada a dificuldades posteriores: a criança vira confidente, mediadora de conflitos entre os pais, ou responsável por regular o estado emocional de um deles.
Nem toda responsabilidade precoce é parentificação
Certo grau de responsabilidade, proporcional à idade, faz parte do desenvolvimento saudável: ajudar em casa não é, por si só, parentificação. O que caracteriza o padrão é o desequilíbrio sustentado: a criança assume função estrutural do sistema, sem reciprocidade nem reconhecimento, e sem que a função seja temporária ou compatível com sua fase do ciclo de vida.
Na clínica
Filhos parentais costumam chegar à vida adulta com dificuldade de pedir ajuda, hipervigilância em relação ao bem-estar alheio e dificuldade de reconhecer as próprias necessidades: competências desenvolvidas cedo demais, a um custo. Nomear o padrão na terapia (com a família, quando possível, ou individualmente na vida adulta) costuma abrir espaço para devolver a função ao lugar de onde nunca deveria ter saído.
Referências
BOSZORMENYI-NAGY, Ivan; SPARK, Geraldine M. Invisible Loyalties: Reciprocity in Intergenerational Family Therapy. Harper & Row, 1973.
HOOPER, Lisa M. The Application of Attachment Theory and Family Systems Theory to the Phenomena of Parentification. The Family Journal: Counseling and Therapy for Couples and Families, v. 15, n. 3, p. 217–223, 2007.