Sistemas que se produzem a si mesmos
Maturana e Varela cunharam o termo, em 1980, para descrever a organização própria dos seres vivos: uma célula, um organismo, produz continuamente os componentes que a constituem, e é essa rede de autoprodução (não uma substância ou forma fixa) que define o que é um sistema vivo. Um sistema autopoiético mantém sua organização mesmo trocando continuamente matéria e energia com o meio.
Da biologia à família
Varela, em 1989, refletiu diretamente sobre como o conceito circulou da biologia da cognição para a terapia familiar sistêmica: se um sistema vivo se autoproduz, ele não pode simplesmente "receber instruções" de fora, só reage ao ambiente segundo sua própria organização interna (acoplamento estrutural). Aplicado à família, isso ajuda a explicar por que uma intervenção terapêutica nunca "instrui" a família a mudar diretamente: ela perturba o sistema, que reorganiza a si mesmo segundo sua própria estrutura, não segundo a intenção do terapeuta.
Uma leitura diferente de homeostase
Autopoiese não é sinônimo de homeostase familiar. Homeostase descreve a tendência a preservar um estado de equilíbrio; autopoiese descreve algo mais radical: a produção contínua da própria organização que torna o sistema aquilo que ele é, incluindo sua capacidade de se transformar sem deixar de ser reconhecível como aquele sistema.
Na clínica
A ideia de acoplamento estrutural desloca a expectativa de que o terapeuta "conserta" a família de fora. A intervenção funciona como uma perturbação que o sistema processa segundo sua própria organização, o que explica por que a mesma intervenção produz efeitos diferentes em famílias diferentes, e por que a colaboração da família na leitura da própria dinâmica costuma pesar mais do que a autoridade técnica do terapeuta.
Referências
MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. Autopoiesis and Cognition: The Realization of the Living. D. Reidel, 1980.
VARELA, Francisco J. Reflections on the circulation of concepts between a biology of cognition and systemic family therapy. Family Process, v. 28, p. 15–24, 1989.