Vladimir Melo · Psicologia Clínica
4 min de leitura

O problema não é você: a narrativa além da dor

culpa

Um paciente entra no consultório e, antes mesmo de sentar, diz: "Eu sei que o problema sou eu." A frase soa como veredito. Ele chega com a sentença pronta e, no fundo, espera de mim uma confirmação.

Esse é um dos pontos de partida mais frequentes na clínica. E talvez um dos mais importantes para colocar em dúvida.

Quando alguém diz "o problema sou eu", transforma uma experiência (algo que acontece, tem história e contexto) em identidade. A ansiedade deixa de aparecer em certas situações e vira traço de caráter. O conflito no casamento deixa de ser um padrão relacional e passa a parecer defeito de uma pessoa. Essa passagem do acontecer para o ser costuma ser parte central do sofrimento.

Você é o personagem, não o vilão da história

A terapia narrativa, desenvolvida por Michael White, parte de uma frase que parece simples e muda tudo: o problema é o problema, e a pessoa não é o problema.

Não se trata de otimismo nem de isentar alguém de responsabilidade. Trata-se de criar distância. Quando a dor se confunde com a identidade, fica difícil observá-la. Mas, quando ansiedade, raiva ou tristeza são vistas como algo separado, com nome e história próprios, abre-se um espaço. É nele que a ação volta a ser possível.

A esse movimento, White deu o nome de externalização. Em vez de perguntar "por que você é assim", a conversa passa a investigar como o problema entrou na vida da pessoa, o que ele faz e quando perde força.

Quatro coisas mudam quando o problema sai de dentro

Quando o problema deixa de ser sinônimo da pessoa, algo se reorganiza dentro dela e ao redor dela.

A primeira mudança é que a culpa perde protagonismo. Famílias podem passar anos discutindo de quem é a falha, mas isso raramente ajuda. Tirar o problema do território da culpa libera energia para enfrentá-lo.

A segunda é o alívio da sensação de fracasso. Quem tentou resolver algo muitas vezes e não conseguiu costuma concluir que é incapaz. Quando o problema é visto como uma força externa, essa conclusão deixa de ser automática.

A terceira é que as pessoas voltam a cooperar. Num sistema familiar saturado pelo problema, os membros competem entre si, cada um defendendo sua versão de quem errou. Externalizar o problema permite que se unam contra ele, em vez de uns contra os outros.

E a quarta, talvez a mais importante, é que surgem brechas. Sempre houve momentos em que o problema não venceu. White chamava isso de resultados únicos: evidências pequenas, mas decisivas, que contradizem a história dominante.

A herança relacional que quase ninguém enxerga

Há, porém, uma camada mais profunda. Nem toda dor começa na pessoa que a carrega.

Ivan Boszormenyi-Nagy, referência da terapia familiar, propôs que toda família mantém uma contabilidade invisível entre o que cada um dá e recebe ao longo das gerações. Quando esse balanço é justo, a confiança circula. Quando há desequilíbrio, uma dívida silenciosa pode atravessar o tempo.

Quando injustiças antigas não são reconhecidas, elas não desaparecem. Podem virar o que Nagy chamou de direitos destrutivos: a pessoa ferida no passado passa a se sentir autorizada a ferir no presente, como se cobrasse uma conta que pertence a outra história.

Esse pano de fundo não é abstrato. Pesquisas recentes indicam altos índices de solidão e sintomas depressivos entre adultos nascidos nas décadas de 60 e 70. Não se trata apenas de fraqueza individual, mas também de vínculos sociais enfraquecidos, redes de apoio menores e uma vida mais isolada.

Por isso a postura clínica não deve escolher um culpado. Nagy falava em parcialidade multidirecionada: o terapeuta reconhece, em momentos diferentes, o que cada pessoa do sistema carrega de legítimo.

Reescrever a história não é fingir que ela não aconteceu

Quando falo em reescrever a própria história, muita gente teme que isso signifique maquiar o passado, fingir que a dor não existiu ou trocar a verdade por uma versão mais confortável.

Não é nada disso.

Reautoria, na terapia narrativa, não apaga o que aconteceu. Ela amplia o que também aconteceu e foi esquecido. A história dominante (a do fracasso, da culpa, do "sempre fui assim") convence porque seleciona apenas os episódios que a confirmam. Reescrever é recuperar os outros: momentos em que a pessoa resistiu, escolheu diferente, cuidou, sobreviveu.

Aqui a clínica se aproxima de uma ideia de Humberto Maturana e Francisco Varela: seres vivos não são coisas prontas que apenas reagem ao ambiente, mas sistemas que se refazem continuamente nas interações. Eles chamaram isso de autopoiese. A ideia sugere algo potente: não somos estruturas fixas esperando conserto, mas processos em andamento.

A saúde, sob essa lente, não é a ausência de crise. É a capacidade de criar significado novo depois dela.

Para encerrar

Penso naquele paciente que entrou dizendo "o problema sou eu". O trabalho terapêutico não foi convencê-lo do contrário com incentivo, mas devolver a distância necessária para que ele percebesse que havia muito mais em sua vida do que a história de fracasso que trazia ensaiada.

Separar a pessoa do problema é um gesto de justiça com a complexidade de uma vida, que nunca cabe inteira num diagnóstico ou numa frase de sentença. Reescrever a própria narrativa é se reconhecer como autor, e não apenas como personagem condenado por uma trama que outros começaram.

Talvez seja isso o que a clínica tem de mais valioso a oferecer: não uma resposta, mas a caneta de volta na mão.

← Todos os artigos