Um paciente entra no consultório e, antes mesmo de sentar, diz: "Eu sei que o problema sou eu." A frase soa como veredito. Ele chega com a sentença pronta e, no fundo, espera uma confirmação.
Esse é um dos pontos de partida mais frequentes na clínica. E talvez um dos mais importantes para colocar em dúvida.
Quando alguém diz "o problema sou eu", transforma uma experiência (algo que acontece, tem história e contexto) em identidade. A ansiedade deixa de aparecer em certas situações e vira traço de caráter. O conflito no casamento deixa de ser um padrão relacional e passa a parecer defeito de uma pessoa. Essa passagem do acontecer para o ser costuma ser parte central do sofrimento.
Protagonista, não vilão da própria história
A terapia narrativa, desenvolvida por Michael White, parte de uma frase que parece simples e muda tudo: o problema é o problema, e a pessoa não é o problema.
Não se trata de otimismo nem de isentar alguém de responsabilidade. Trata-se de criar distância. Quando a dor se confunde com a identidade, fica difícil observá-la. Mas, quando ansiedade, raiva ou tristeza são vistas como algo separado, com nome e história próprios, abre-se um espaço. É nele que a ação volta a ser possível.
A esse movimento, White deu o nome de externalizaçãoNa terapia narrativa de White e Epston, prática de linguagem que separa a pessoa do problema (em vez de "você é ansioso", fala-se em "a ansiedade tenta te convencer de..."), abrindo espaço para a pessoa se relacionar com o problema, em vez de ser definida por ele.. Em vez de perguntar "por que você é assim", a conversa passa a investigar como o problema entrou na vida da pessoa, o que ele faz e quando perde força.
Quatro coisas mudam quando o problema sai de dentro
Quando o problema deixa de ser sinônimo da pessoa, algo se reorganiza dentro dela e ao redor dela.
A primeira mudança é que a culpa perde protagonismo. Famílias podem passar anos discutindo de quem é a falha, mas isso raramente ajuda. Tirar o problema do território da culpa libera energia para enfrentá-lo.
A segunda é o alívio da sensação de fracasso. Quem tentou resolver algo muitas vezes e não conseguiu costuma concluir que é incapaz. Quando o problema é visto como uma força externa, essa conclusão deixa de ser automática.
A terceira é que as pessoas voltam a cooperar. Num sistema familiar saturado pelo problema, os membros competem entre si, cada um defendendo sua versão de quem errou. Externalizar o problema permite que se unam contra ele, em vez de uns contra os outros.
E a quarta, talvez a mais importante, é que surgem brechas. Sempre houve momentos em que o problema não venceu. White chamava isso de resultados únicos: evidências pequenas, mas decisivas, que contradizem a história dominante.
A herança relacional que quase ninguém enxerga
Há, porém, uma camada mais profunda. Nem toda dor começa na pessoa que a carrega.
Ivan Boszormenyi-Nagy, referência da terapia familiar, propôs que toda família mantém uma contabilidade invisível entre o que cada um dá e recebe ao longo das gerações. Quando esse balanço é justo, a confiança circula. Quando há desequilíbrio, uma dívida silenciosa pode atravessar o tempo.
Quando injustiças antigas não são reconhecidas, elas não desaparecem. Podem virar o que Nagy chamou de direitos destrutivosNa terapia contextual de Böszörményi-Nagy, sensação inconsciente de estar autorizado a ferir alguém no presente como forma de compensar uma injustiça sofrida no passado: a dívida de uma relação sendo cobrada de outra pessoa, que não a deve.: a pessoa ferida no passado passa a se sentir autorizada a ferir no presente, como se cobrasse uma conta que pertence a outra história.
Esse pano de fundo não é abstrato. Um estudo publicado em 2026 na Current Directions in Psychological Science mostra que adultos americanos nascidos nas décadas de 60 e 70 relatam índices mais altos de solidão e sintomas depressivos do que gerações anteriores na mesma faixa etária (Infurna et al., 2026). Não se trata apenas de fraqueza individual, mas também de vínculos sociais enfraquecidos, redes de apoio menores e uma vida mais isolada.
Por isso a postura clínica não deve escolher um culpado. Nagy falava em parcialidade multidirecionadaNa terapia contextual de Böszörményi-Nagy, postura técnica em que o terapeuta se alia, em momentos diferentes da sessão, a cada membro da família (reconhecendo o que cada um carrega de legítimo), em vez de manter neutralidade ou tomar partido fixo de um só lado.: o terapeuta reconhece, em momentos diferentes, o que cada pessoa do sistema carrega de legítimo.
Reescrever a história não é fingir que ela não aconteceu
Falar em reescrever a própria história costuma despertar o temor de que isso signifique maquiar o passado, fingir que a dor não existiu ou trocar a verdade por uma versão mais confortável.
Não é nada disso.
Reautoria, na terapia narrativa, não apaga o que aconteceu. Ela amplia o que também aconteceu e foi esquecido. A história dominante (a do fracasso, da culpa, do "sempre fui assim") convence porque seleciona apenas os episódios que a confirmam. Reescrever é recuperar os outros: momentos em que a pessoa resistiu, escolheu diferente, cuidou, sobreviveu.
Aqui a clínica se aproxima de uma ideia de Humberto Maturana e Francisco Varela: seres vivos não são coisas prontas que apenas reagem ao ambiente, mas sistemas que se refazem continuamente nas interações. Eles chamaram isso de autopoieseConceito de Maturana e Varela para sistemas vivos que produzem e mantêm continuamente a própria organização, distinguindo-se do ambiente por essa autoprodução, aplicado à família e à terapia sistêmica para pensar como um sistema social também se autoproduz e resiste a mudanças impostas de fora.. A ideia sugere algo potente: não somos estruturas fixas esperando conserto, mas processos em andamento.
A saúde, sob essa lente, não é a ausência de crise. É a capacidade de criar significado novo depois dela.
O recomeço a partir da narrativa
Penso naquele paciente que entrou dizendo "o problema sou eu". O trabalho terapêutico não foi convencê-lo do contrário com incentivo, mas devolver a distância necessária para que ele percebesse que havia muito mais em sua vida do que a história de fracasso que trazia ensaiada.
Separar a pessoa do problema é um gesto de justiça com a complexidade de uma vida, que nunca cabe inteira num diagnóstico ou numa frase de sentença. Reescrever a própria narrativa é se reconhecer como autor, e não apenas como personagem condenado por uma trama que outros começaram.
Talvez seja isso o que a clínica tem de mais valioso a oferecer: não uma resposta, mas a caneta de volta na mão.
Contar a própria história não serve só para revisar uma sentença. Em A narrativa como estratégia de resiliência, acompanho como narrar organiza o que foi vivido e sustenta quem atravessa uma experiência difícil.
Referências
- White, M., & Epston, D. (1990). Narrative means to therapeutic ends. W. W. Norton.
- Boszormenyi-Nagy, I., & Spark, G. M. (1973). Invisible loyalties: Reciprocity in intergenerational family therapy. Harper & Row.
- Maturana, H., & Varela, F. (2001). A árvore do conhecimento: As bases biológicas da compreensão humana. Palas Athena.
- Infurna, F. J., et al. (2026). Historical change in midlife development from a cross-national perspective. Current Directions in Psychological Science.

