Vladimir Melo · Psicologia Clínica

A narrativa como estratégia de resiliência

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O diário de Anne Frank é um livro sobre as lembranças de uma adolescente alemã de origem judaica durante o Holocausto que impressionaram o mundo. Não exatamente por relatar fatos desse período da história, mas por ser uma narrativa infantojuvenil autêntica e lúcida a respeito de vários temas num contexto tão adverso.

O poder terapêutico da escrita e da tradição oral

O poder terapêutico da escrita em momentos de dor tem sustentação empírica. Pennebaker e Beall (1986) mostraram que escrever sobre um evento traumático ao longo de poucos dias reduz visitas médicas e sintomas de doença nos meses seguintes, mesmo que a escrita eleve o desconforto emocional no momento em que acontece. Trata-se de uma tarefa de elaboração ou, em outras palavras, uma forma de dar sentido a uma experiência que desperta angústia. Infelizmente, a tecnologia pouco a pouco fez desaparecer o hábito de escrever diário e nada substituiu essa atividade organizadora a contento.

No entanto, em algumas partes do mundo ainda existe uma forte tradição oral que sustenta o valor das narrativas. Essas histórias transmitidas de geração para geração são fundamentais como referência para auxiliar no enfrentamento de períodos difíceis, como este do coronavírus.

Por exemplo, a narrativa de força de um sertanejo ao longo da seca é uma representação de coragem para a família. Essa referência pode prover a força para que seu filho enfrente os desafios de uma metrópole.

O objeto transicional de Winnicott

O filme O náufrago explora bem esse ponto. O protagonista guarda a foto da esposa com o propósito de reencontrá-la e estabelece uma relação de amizade com uma bola de vôlei. Os sentidos construídos por meio desses símbolos proporcionam uma força de sobrevivência e superação.

Para além do exemplo da ficção, esses símbolos são usados por crianças para superar a separação da mãe. O paninho ou urso de pelúcia, conhecido como objeto transicional na teoria de D. W. Winnicott, assume essa função simbólica que contribui para a estruturação do eu no mundo.

A dificuldade de reconhecer a dor e todo o esforço para evitá-la impede o curso natural dos processos subjetivos pelos quais se constrói os sentidos de uma experiência.

Narrar para protagonizar

Escrever ou falar abre caminho para a elaboração do sofrimento, inclusive o luto. A angústia pode ser liberada e convertida em atributos positivos através de símbolos. Vale lembrar que Freud fabulou e teorizou brilhantemente sobre esse processo em Totem e Tabu.

Essa mesma ideia — de que contar a própria história é um ato de autoria, não de resignação — aparece com mais profundidade em Identidade e sofrimento: o que a narrativa revela, sobre como separar a pessoa do problema abre espaço para reescrever a narrativa que a define.

Referências

FREUD, Sigmund. Totem e tabu. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

PENNEBAKER, James W.; BEALL, Sandra K. “Confronting a Traumatic Event: Toward an Understanding of Inhibition and Disease.” Journal of Abnormal Psychology, 95(3), p. 274-284, 1986.

WINNICOTT, Donald W. “Transitional Objects and Transitional Phenomena.” International Journal of Psychoanalysis, 34, p. 89-97, 1953. Edição brasileira em O brincar e a realidade. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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