A transmissão opera por vias heterogêneas: observação do comportamento das gerações precedentes, partilha do cotidiano, comunicação verbal explícita, valores e expectativas depositadas sobre a descendência, rituais e tradições familiares. Inclui também o que não foi verbalizado: segredos, interdições e silêncios que organizam o campo relacional sem jamais serem enunciados.
Transgeracional e intergeracional
A distinção é operatória. Na tradição psicanalítica de Kaës e Eiguer, denomina-se intergeracional a transmissão que preserva o espaço entre transmissor e receptor: o legado é simbolizado e, por isso, pode ser pensado, recusado ou transformado. Transgeracional designa o que atravessa as gerações sem elaboração prévia, abolindo as bordas subjetivas e resistindo à reelaboração posterior. Na literatura sistêmica brasileira o termo tem uso mais extensivo, cobrindo a transmissão de padrões familiares com ou sem elaboração.
Na clínica
A transmissão não determina o desfecho: há continuidade e há ruptura, e o legado admite repetição, transformação ou evitação. A intervenção incide sobre esse ponto, ao converter em objeto de exame o que era tomado como natural. É a mesma contabilidade implícita de dívidas e méritos que Böszörményi-Nagy formaliza nas lealdades invisíveis, orientando condutas que nenhum membro do sistema deliberou adotar.
Referências
KAËS, René (org.). Transmissão da vida psíquica entre gerações. Casa do Psicólogo, 2001.