Vladimir Melo · Psicologia Clínica
Glossário

Paciente identificado

Membro da família apontado, pelo próprio sistema, como quem "tem" o problema, enquanto a leitura sistêmica entende o sintoma como expressão de uma dinâmica que envolve toda a família, não uma falha isolada de quem o carrega.

O sintoma tem função no sistema

Virginia Satir cunhou o termo "paciente identificado" (I.P.) para nomear, sem reforçar, o papel que a família atribui a um de seus membros: "o problemático", "o doente", "o culpado". Satir propôs olhar o sintoma como algo que cumpre também uma função familiar, não só individual, sem negar o sofrimento real de quem carrega o sintoma.

Vogel e Bell (1960), em um estudo clássico sobre crianças emocionalmente perturbadas, descreveram o mesmo fenômeno como "bode expiatório" (family scapegoat): a família concentra num só membro a tensão que não consegue nomear diretamente, atribuindo a ele a culpa pelo sofrimento coletivo. Na literatura de terapia familiar, os dois termos (paciente identificado e bode expiatório) são amplamente usados como sinônimos.

Por que a família aponta um só membro

Recrutar um paciente identificado costuma ser uma forma, não deliberada, de o sistema lidar com uma tensão que não consegue nomear diretamente: o mesmo mecanismo que sustenta a homeostase familiar e a triangulação. Concentrar o problema numa pessoa evita que a família precise encarar um conflito mais amplo, como uma tensão conjugal ou uma dinâmica geracional não resolvida.

Risco de reforçar o próprio rótulo

Nomear alguém como "o problema da família" tende a se autorreforçar: o rótulo organiza como os demais tratam essa pessoa, e a pessoa, por sua vez, tende a responder de acordo com o papel que lhe foi atribuído. Romper esse ciclo exige que a terapia trate o sintoma como fenômeno do sistema, sem transferir a "culpa" de um indivíduo para outro dentro da mesma família.

Na clínica

Reconhecer o paciente identificado como uma posição dentro do sistema, não uma característica fixa da pessoa, é o que abre espaço para a família assumir coletivamente o processo terapêutico, em vez de tratar a terapia como um "conserto" do membro sintomático enquanto o resto da família permanece de fora.

Referências

SATIR, Virginia. Conjoint Family Therapy. Science and Behavior Books, 1964.

VOGEL, Ezra F.; BELL, Norman W. The emotionally disturbed child as the family scapegoat. In: A Modern Introduction to the Family. Free Press, 1960.

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