A distinção
Watzlawick, Weakland e Fisch, do Mental Research Institute de Palo Alto, propuseram em 1974 duas formas de mudança. Na mudança de primeira ordem, o sistema varia dentro das próprias regras: muda a intensidade ou a forma do comportamento, e a estrutura que o organiza permanece. Na mudança de segunda ordem, são as regras do sistema que se alteram, e o padrão deixa de funcionar como antes.
De onde vem a ideia
Os autores tomaram duas ferramentas emprestadas da matemática e da lógica: a teoria dos grupos, para pensar a mudança dentro de um conjunto de regras, e a teoria dos tipos lógicos, de Russell e Whitehead, para pensar a passagem a um nível superior. O exemplo do pesadelo ilustra a diferença: correr, esconder-se ou gritar são mudanças dentro do sonho, e só acordar muda o próprio sonho. O do carro segue a mesma lógica: pisar mais fundo no acelerador altera a velocidade dentro de uma marcha, e trocar de marcha é uma operação de outra natureza.
Quando a solução tentada sustenta o problema
A tese central do livro é que muitos problemas persistem porque todas as tentativas de solução ficam no primeiro nível: fazer mais do mesmo, com mais esforço. Nesse circuito, a solução tentada passa a manter o problema. A ideia se liga à retroalimentaçãoMecanismo pelo qual a saída (resultado) de uma interação retorna ao sistema como entrada, influenciando o comportamento seguinte: retroalimentação negativa tende a restaurar o equilíbrio anterior; positiva, a amplificar a mudança em curso. e à homeostase familiarTendência de um sistema familiar a preservar um estado de equilíbrio interno, resistindo a mudanças que ameaçam os padrões de interação já estabelecidos, inclusive por meio do sintoma de um dos membros, que pode funcionar como regulador dessa estabilidade.: o sistema tende a corrigir o desvio e voltar ao padrão conhecido, e insistir na regra antiga é uma forma de preservá-lo. A distinção não se confunde com a de cibernética de primeira e de segunda ordem, que trata da posição do observador (ver cibernéticaCiência formulada por Wiener sobre os mecanismos de controle e comunicação em sistemas (como a informação circula, se processa e regula o comportamento de máquinas, organismos e, na aplicação do grupo de Palo Alto, de famílias), fundamento dos conceitos de retroalimentação e circularidade.).
Na clínica
Distinguir os dois tipos ajuda a perguntar se a família está intensificando a mesma regra ou se há espaço para renegociá-la. Pais que respondem à autonomia de um adolescente com mais horários e mais controle estão no primeiro nível. Combinar com o filho como e por quem a decisão será tomada é mudar a regra. A segunda ordem não é melhor em si: muitas situações pedem ajuste dentro das regras, e a distinção serve para reconhecer quando o ajuste deixou de bastar.
O modelo nasceu da terapia breve centrada no problema, em que o terapeuta intervém sobre o sistema. Abordagens posteriores, de inspiração construcionista e dialógica, questionaram essa posição de condução externa. A distinção segue em uso como lente para ler padrões, não como técnica prescritiva.
Referências
WATZLAWICK, Paul; WEAKLAND, John H.; FISCH, Richard. Change: Principles of Problem Formation and Problem Resolution. W. W. Norton, 1974.
WATZLAWICK, Paul; WEAKLAND, John H.; FISCH, Richard. Mudança: princípios de formação e resolução de problemas. Cultrix, 1977.