Numa noite de terça, na cozinha, o filho de quinze anos avisa que no sábado vai voltar do aniversário de ônibus com os colegas. A mãe lembra que quem busca é sempre ela e, quando ele diz que não precisa, pede uma mensagem a cada hora. Enquanto isso, o pai combina ao telefone com a irmã quem vai levar o avô ao cardiologista.
A cena cabe em poucos metros e envolve três gerações. O filho pede autonomia, os pais atravessam a metade da vida entre trabalho, casamento e o cuidado com o avô, e o avô começa a depender dos próprios filhos. Os conflitos com filho adolescente podem ser entendidos, na leitura sistêmica, como expressão dessa sobreposição: a família inteira muda de fase ao mesmo tempo, e cada geração chega à mesma casa com uma tarefa diferente.
A adolescência é uma fase da família inteira
O ciclo de vida familiarModelo usado para compreender as transições, tarefas e desafios recorrentes ao longo da trajetória das famílias, como a chegada de filhos, a adolescência ou a saída de casa dos filhos. Essas transições não seguem necessariamente uma sequência única ou linear, podendo variar conforme a história, a cultura e a configuração de cada família. descreve a família como um sistema que atravessa fases, cada uma com tarefas próprias: a formação do casal, a chegada dos filhos, a adolescência, a saída de casa, o envelhecimento. No modelo de Carter e McGoldrick (1995), a atenção recai sobre as transições entre uma fase e outra, porque é nelas que a família precisa mudar regras e papéis que até então funcionavam.
A adolescência é uma dessas transições. Preto (1995) trata o período como transformação do sistema familiar. A pesquisa brasileira segue na mesma direção. Cerveny e Berthoud (1997), num estudo com 1.105 famílias de 69 cidades do estado de São Paulo, descrevem a fase adolescente como uma etapa do ciclo vital da família inteira. Os dados vêm de famílias paulistas e não autorizam falar pelo país inteiro.
Três gerações mudando ao mesmo tempo
O filho entra numa fase em que construir autonomia é a tarefa central. Pedir para voltar de ônibus, escolher com quem anda, discordar em voz alta: é assim que a fase aparece dentro de casa. Ele ocupa uma posição nova na família, a de quem começa a decidir sobre a própria vida, e os outros precisam responder a essa posição.
Stierlin (1974) tratou a separação entre pais e adolescentes como um processo de mão dupla: cada lado se separa do outro ao mesmo tempo. Uma família pode segurar o filho perto demais ou empurrá-lo cedo demais, e nos dois casos o movimento envolve todos. Quando o filho adolescente se afasta da família, o afastamento é um dos lados dessa separação, e o outro lado pertence aos adultos.
Os pais, por sua vez, costumam estar na meia-idade. O trabalho pede balanço, o casamento chega a um ponto de revisão e o corpo dá os primeiros avisos. A autonomia do filho aparece justamente quando os adultos fazem as próprias contas, e a preocupação com o horário de volta pode carregar também a perspectiva de uma casa mais quieta. Essa etapa seguinte, a da saída dos filhos, está no texto sobre o ninho vazio.
Na geração acima, os avós começam a precisar de cuidado. Consultas, exames e decisões sobre onde e com quem viver passam a ocupar a agenda dos pais, que orientam um adolescente e, no mesmo dia, atendem aos próprios pais. O texto sobre a geração sanduíche descreve o que esse acúmulo faz com quem ocupa esse lugar.
O tempo e a atenção dos pais são os mesmos que o filho disputa por autonomia e o avô por cuidado. Uma discussão sobre o horário de volta carrega, assim, uma pressão acumulada em outras frentes.
O mundo de fora entra em casa
Uma família é um sistema abertoNa Teoria Geral dos Sistemas de Bertalanffy, distinção entre sistemas que trocam matéria, energia ou informação com o ambiente (abertos) e os que permanecem isolados dessas trocas (fechados), aplicada à família para descrever o quanto ela permanece permeável a influências externas. em maior ou menor grau: troca informação com a escola, os amigos, a vizinhança, a família extensa, e o grau dessa abertura muda ao longo do ciclo de vida. Na adolescência, quem mais traz informação de fora é o filho, mesmo quando fala pouco sobre isso. Ele chega com outras referências sobre horários, roupas, música, linguagem e valores, vindas de colegas, de treinos, de grupos online e do que circula nas redes.
A casa precisa decidir o que incorpora e o que mantém. Uma família que fecha a entrada tende a repetir padrões antigos ainda que eles deixem de servir, e uma que não filtra nada pode perder a coesão que sustenta a convivência. Entre os canais por onde o mundo de fora chega, a internet ocupa um lugar ao lado da escola, da rua e dos amigos. Os tipos de limite entre pais e filhos estão no texto sobre fronteiras no sistema familiar. Aqui interessa a abertura da casa ao que vem de fora.
Conflitos com filho adolescente: intensificar a regra ou mudá-la
Watzlawick, Weakland e Fisch (1974) distinguem dois tipos de mudança. Na mudança de primeira ordemDistinção de Watzlawick, Weakland e Fisch entre mudar dentro das regras do sistema (primeira ordem, fazer mais ou menos do mesmo) e mudar as próprias regras que o organizam (segunda ordem)., o sistema varia dentro das próprias regras, fazendo mais ou menos do mesmo. Na de segunda ordem, as regras do sistema é que mudam.
Aplicada à adolescência, a distinção ajuda a ler a cena da cozinha. A regra "quem busca é a mãe" funcionou durante anos, quando o filho era criança. Diante do pedido de voltar de ônibus, a família tem dois caminhos. Pode reforçar a regra, com horário mais rígido e mais mensagens, e isso é mudança de primeira ordem: a intensidade sobe e a regra permanece. Pode também mudar a regra, e a decisão sobre a volta passa a ser combinada com o filho em vez de ser só da mãe, o que é mudança de segunda ordem.
Reforçar é uma tendência compreensível. A homeostase familiarTendência de um sistema familiar a preservar um estado de equilíbrio interno, resistindo a mudanças que ameaçam os padrões de interação já estabelecidos, inclusive por meio do sintoma de um dos membros, que pode funcionar como regulador dessa estabilidade., a inclinação do sistema a preservar o equilíbrio já conhecido, faz a regra antiga parecer a opção segura, e a insistência costuma vir do cuidado. Cada reforço dos pais encontra um afastamento maior do filho, e esse afastamento, por sua vez, convida a novo reforço. O filho ocupa uma posição nesse circuito, e o circuito se sustenta nos dois lados. A estabilidade, na leitura sistêmica, nunca significou ausência de crise, e o texto A vida em des-re-equilíbrio desenvolve essa ideia.
O trabalho clínico com a família na fase adolescente
Na clínica sistêmica, o trabalho com uma família com filhos adolescentes começa por situar a fase: quem está mudando, em que ritmo, qual regra a família tenta manter e a que custo. O filho não é tratado como problema a diagnosticar. Ele é uma das posições do sistema, e sua conduta é lida junto com a dos demais, sem eleger culpado entre pais, filho ou avós. Em famílias de pais separados, a mesma fase se reorganiza em duas casas, e o acordo entre elas passa a fazer parte do que muda. O texto O casal acaba, os pais continuam trata desse arranjo.
Esta leitura vale para a reorganização comum de uma família com adolescente. Quando há risco para a vida do filho, violência em casa ou sofrimento intenso que não cede, deixou de ser reorganização de fase. O encaminhamento é outro: atendimento clínico imediato e, em situação de crise, o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, 24 horas por dia, ou em cvv.org.br. O texto sobre a internet e o sofrimento dos jovens trata do assunto com o cuidado que ele exige.
O pedido de voltar de ônibus pode parecer pouco, mas a resposta da família a ele já mostra qual das duas mudanças está em curso.
Referências
Carter, B., & McGoldrick, M. (Orgs.). (1995). As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar (2ª ed.). Artes Médicas.
Cerveny, C. M. de O., & Berthoud, C. M. E. (1997). Família e ciclo vital: nossa realidade em pesquisa. Casa do Psicólogo.
Preto, N. G. (1995). Transformação do sistema familiar na adolescência. In B. Carter & M. McGoldrick (Orgs.), As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar (2ª ed., pp. 223–247). Artes Médicas.
Stierlin, H. (1974). Separating parents and adolescents: A perspective on running away, schizophrenia, and waywardness. Quadrangle/New York Times Book Co.
Watzlawick, P., Weakland, J. H., & Fisch, R. (1974). Change: Principles of problem formation and problem resolution. W. W. Norton.

