Vladimir Melo · Psicologia Clínica

A geração sanduíche: cuidando de pais e filhos ao mesmo tempo

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Mulher pensativa em primeiro plano, com a mãe e a filha ao fundo

Numa mesma casa, um pai que já não dirige sozinho espera a filha para levá-lo ao médico. No quarto ao lado, um filho de 24 anos ainda não paga aluguel nem faz a própria comida. É a mesma pessoa que organiza a agenda médica do pai e lava a roupa do filho, todos os dias, sem folga entre uma tarefa e outra.

Essa posição tem nome: geração sanduíche, termo cunhado em 1981 pela assistente social Dorothy Miller para descrever o cuidado simultâneo de quem envelhece e de quem ainda não saiu de casa, recaindo sobre uma única pessoa. Não é um arranjo raro: cresce à medida que a população envelhece e os filhos demoram mais para sair de casa.

Duas questões se organizam mal nesse arranjo, e nenhuma delas é a divisão de tarefas. A primeira é quem carrega o encargo, decisão que raramente se torna explícita e declarada. A segunda é a rede de apoio ao redor da família, que encolhe justamente quando seria mais necessária.

Duas etapas do ciclo de vida acontecem na mesma casa

No Censo de 2022, o IBGE contou 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais no Brasil, 10,9% da população, contra 7,4% em 2010. No mesmo período, as famílias tiveram menos filhos. Mais anos de cuidado, distribuídos entre menos pessoas.

O modelo clássico do ciclo de vida familiar descrevia essas etapas em sequência: os filhos saem de casa, o casal se reorganiza, e só mais tarde o cuidado dos pais entra em cena. Monica McGoldrick, Nydia Garcia Preto e Betty Carter reformularam esse modelo como trajetória não linear, atravessada por classe social, gênero e cultura. A família que vive duas etapas ao mesmo tempo não está atrasada no seu desenvolvimento. O que ocorre é a falta de uma perspectiva mais ampla e complexa que contemple arranjos múltiplos no mesmo sistema, a mesma leitura que orienta o trabalho terapêutico diante do envelhecimento da população.

O cuidado recai sobre quem é mais leal

Quando o cuidado se concentra em um filho, a explicação que a família oferece costuma ser prática. Mora mais perto, tem horário flexível, ganha menos e por isso tem mais tempo. Essas razões raramente se sustentam quando examinadas de perto. Irmãos que moram na mesma cidade cuidam de forma desigual, e quem tem a agenda mais apertada é com frequência quem leva ao médico.

Ivan Boszormenyi-Nagy e Geraldine Spark descreveram outra contabilidade. Cada família mantém um balanço entre o que foi dado e o que foi recebido ao longo das gerações, e esse balanço produz obrigações que ninguém assinou. São as lealdades invisíveisNa terapia contextual de Böszörményi-Nagy, compromissos relacionais inconscientes regidos por uma contabilidade simbólica de dívidas e créditos (o "livro-razão" familiar) que atravessa gerações e orienta escolhas e sintomas sem que o sujeito perceba., compromissos herdados que vinculam a pessoa à família e ao mesmo tempo limitam sua autonomia. Quem cuida raramente escolheu cuidar. Ocupa uma posição que já existia antes de qualquer diagnóstico aparecer.

Essa posição costuma ter história. Quem foi convocado cedo a cuidar dos irmãos menores ou a sustentar uma casa desorganizada chega à vida adulta com uma obrigação que a família não registra como obrigação, e seu nome é o primeiro que ocorre a todos quando o cuidado começa.

A queixa de injustiça entre irmãos é legítima e quase sempre precisa quanto aos fatos, mas costuma estar endereçada ao lugar errado. O irmão que não cuida também está dentro do mesmo balanço. Distribuir culpa não redistribui o cuidado.

A perda ambígua não tem data nem ritual

Existe um segundo custo, mais difícil de nomear porque não aparece na lista de tarefas. Pauline Boss chamou de perda ambíguaTermo cunhado pela psicóloga Pauline Boss (1999) para a perda sem confirmação nem ritual: a pessoa está ausente fisicamente mas presente psicologicamente (desaparecimento), ou presente fisicamente mas ausente psicologicamente (demência), e o luto correspondente não se fecha. a perda que não tem confirmação nem ritual, e uma de suas descrições centrais é a do familiar de alguém com demência: a pessoa permanece fisicamente presente e psicologicamente ausente, e quem cuida vive um luto que não pode anunciar, porque o outro não morreu.

A distinção clínica que esse conceito permite é entre cansaço e luto. O cansaço responde a descanso e a divisão de tarefas. O luto não. Muitas pessoas chegam ao consultório dizendo que estão exaustas, e parte do que descrevem não melhora com folga porque não é cansaço.

A rede de apoio encolhe justamente quando é mais necessária

Esse peso poderia se distribuir por um conjunto maior de vínculos. Carlos Sluzki descreveu esse conjunto como rede social pessoalConceito de Carlos Sluzki (1997) para o conjunto de vínculos significativos de uma pessoa além da família nuclear, que sustenta funções distintas (companhia social, apoio emocional, orientação, ajuda material e acesso a novos contatos) raramente concentradas num único vínculo., o círculo de relações significativas além da família nuclear, e mostrou que ele não presta um serviço único. A rede oferece companhia, apoio emocional, orientação diante de decisões, ajuda material e acesso a novos contatos, e cada vínculo sustenta bem algumas dessas funções e não outras.

Na doença prolongada e no envelhecimento, essa rede encolhe exatamente quando seria mais necessária. Encolhem duas ao mesmo tempo: a do pai ou da mãe, por morte de contemporâneos e perda de mobilidade, e a de quem cuida, que vai desmarcando encontros e reduzindo a vida social para dedicar esse tempo ao cuidado.

O efeito é de concentração. Todas as funções que a rede distribuía passam a ser cobradas de uma pessoa só, a mesma que o balanço de lealdade já havia escolhido. Frequentemente, o companheiro ou companheira são recrutados e o casal passa a exercer junto esse papel, que pode representar uma sobrecarga, mas também pode unir o casal em torno de um terceiro (ver triangulação).

A renegociação do encargo começa pela rede, não pela escala

O pedido que chega ao consultório costuma ser de organização. Uma escala melhor, um argumento que convença o irmão ausente. A escala é o efeito, e costuma voltar ao desenho anterior em poucas semanas quando o resto permanece intocado.

O trabalho terapêutico se dirige a duas conversas que não aconteceram. A primeira é entre os irmãos, incluindo o que está ausente e, sempre que possível, o próprio pai ou a própria mãe, que costuma ser tratado como objeto do cuidado e não como parte da conversa sobre ele. Não é uma conversa sobre tarefas, e sim sobre o que cada um entende que deve, a quem deve e desde quando.

A segunda conversa é externa. Em vez de perguntar quem está disponível, o que rende respostas vagas, a pergunta se dirige a funções específicas: um familiar que não estará no plantão do hospital, por exemplo, pode ser exatamente quem resolve a negociação com o plano de saúde.

O que muda com mais consistência não é a divisão do encargo, é o isolamento. O cuidado deixa de ser assunto privado de uma pessoa e volta a ser assunto da família.

A razão pela qual o encargo coube àquele filho, e não aos outros, raramente é compartilhada. Enquanto essa conversa não acontece, a carga segue sendo depositada todos os dias, em silêncio, sobre uma pessoa só.

Referências

Boss, P. (1999). Ambiguous loss: Learning to live with unresolved grief. Harvard University Press.

Boszormenyi-Nagy, I., & Spark, G. M. (1973). Invisible loyalties: Reciprocity in intergenerational family therapy. Harper & Row.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2023). Censo Demográfico 2022: População por idade e sexo. IBGE.

McGoldrick, M., Garcia Preto, N., & Carter, B. (2016). The expanding family life cycle: Individual, family, and social perspectives (5th ed.). Pearson.

Miller, D. A. (1981). The "sandwich" generation: Adult children of the aging. Social Work, 26(5), 419–423.

Sluzki, C. E. (1997). A rede social na prática sistêmica: Alternativas terapêuticas. Casa do Psicólogo.

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