Em muitas casas, um menino aprende cedo que a cozinha não é um lugar seu. As meninas da família crescem sendo educadas para cuidar da casa; os meninos, para resolver problemas práticos e prover. Essa divisão, aprendida na infância, costuma seguir intacta até a vida adulta, e molda tanto a relação de um homem com o próprio espaço quanto, mais tarde, a divisão de tarefas dentro de um casamento.
Um padrão transmitido, não escolhido
A masculinidade está relacionada a um conjunto de padrões relacionais transmitidos pelas famílias ao longo de gerações. Pais e mães, consciente ou inconscientemente, reproduzem essa relação de gênero: meninas aprendem a cozinhar e cuidar da casa; meninos são incentivados para fora dela.
Um mito sustenta essa divisão: o de que meninos são naturalmente desajeitados nas tarefas domésticas. Famílias que questionam esse mito, e oferecem aos meninos a mesma oportunidade de desenvolver habilidades em casa, contribuem para um modelo diferente de masculinidade.
Autonomia doméstica como etapa do amadurecimento
O estágio de jovem adulto costuma ser o primeiro momento em que um homem precisa, de fato, lidar com o próprio espaço doméstico: seja na faculdade, seja ao sair de casa para trabalhar. No Brasil, essa realidade tem se tornado mais comum com a facilidade de estudar em universidades federais fora da cidade de origem.
Para muitos, é mais do que uma oportunidade: é uma necessidade que pode vir acompanhada de ansiedade. Ser responsável pelo próprio espaço envolve mais do que lavar roupa ou louça. É um cuidado simbólico, que permite rever expectativas sobre o que cabe a cada um dentro de uma relação.
Da casa ao casamento: dividir sem sobrecarregar
Sair de casa direto para o casamento, sem passar por essa etapa de autonomia, costuma prolongar o modelo familiar que divide as responsabilidades conforme o gênero. Mesmo quando o casal percebe que essa complementaridadePadrão de interação descrito por Watzlawick, Beavin e Jackson em que os participantes trocam comportamentos diferentes e encaixados entre si — um ocupa a posição de quem conduz, o outro a de quem responde —, cada comportamento reforçando o do outro. é confortável para os dois, a relação de codependência pode acumular um peso que só se manifesta em outro estágio do relacionamento.
A sobrecarga nas tarefas domésticas, nos cuidados com os filhos e no trabalho é uma queixa recorrente nesse tipo de família. Valorizar o lar e sua manutenção costuma ser mais fácil para quem já se encarregou dessas tarefas antes, por conta própria.
Pais que cozinham, filhos que aprendem
Um dos reflexos dessa nova masculinidade são homens que se tornam participativos na educação alimentar dos filhos: vão ao mercado, opinam, preparam refeições e dividem essa responsabilidade com as mulheres. Ainda que elas desejem essa mudança, seguem, na maioria das famílias, sobrecarregadas com as tarefas do lar, o que pode gerar insegurança quanto ao controle que antes exerciam sozinhas nesse espaço.
Se o objetivo é um pai envolvido com a alimentação dos filhos, o caminho passa por pensar primeiro na criança: meninos, em especial, precisam de liberdade e incentivo para se desenvolver na cozinha. O filho que cresce perto do fogão tende a se tornar um pai mais próximo da alimentação dos próprios filhos.
A maturidade de estar só
Viver sozinho costuma ser um capítulo pouco discutido dentro do tema da masculinidade. Para muitos homens, é a primeira experiência real de responsabilidade pelo próprio espaço, e um passo importante na construção de uma masculinidade que não depende de alguém para se sustentar em casa.
Essa mesma autonomia, quando não é desenvolvida, tende a se deslocar para outro lugar: a vida afetiva. Homens que nunca aprenderam a cuidar da própria casa, nem da própria rede de relações, frequentemente concentram todas as suas necessidades num único vínculo. Desenvolvo esse deslocamento, e o seu custo para a família inteira, em Solidão masculina: o que isso custa à família.

