Noite de domingo e um carro para em frente a uma casa que não é mais a mesma há alguns meses. A mãe desce, entrega a mochila do filho já arrumada e confere se o dever de matemática está feito. Troca duas frases rápidas com o pai sobre o horário do médico na quarta. Não há discussão, e também não há intimidade.
Essa cena se repete, com variações, a cada fim de semana de troca. O casamento acabou, mas a coparentalidadeCoordenação entre dois ou mais adultos que exercem juntos a função parental: relação entre eles, não entre cada um e a criança. Não depende de conjugalidade: existe dentro de um casamento intacto e continua depois que ele termina., a tarefa de decidir junto sobre o filho depois da separação, continua exigindo dos dois adultos algum tipo de acordo. É esse resto que costuma doer mais do que a separação em si: dois ex-cônjuges que não escolheriam mais viver juntos, mas seguem tendo que se entender sobre a mesma criança.
A separação termina o casamento, não a coparentalidade
Na terapia familiar estrutural de Salvador Minuchin, uma família se organiza em subsistemasNa terapia estrutural de Minuchin, unidade formada por membros do sistema familiar organizados em torno de geração, sexo, função ou interesse (subsistema conjugal, parental, fraterno), cada uma delimitada por fronteiras que regulam contato e diferenciação.: unidades menores, formadas por certos membros, cada uma com sua própria fronteira e sua própria função (Minuchin, 1974). O casal é um subsistema. Os pais também são, e não é o mesmo subsistema, mesmo quando são as mesmas duas pessoas.
O casamento é o vínculo entre duas pessoas que escolheram uma à outra. A parentalidadeFunção de cuidado, proteção e socialização exercida junto a uma criança ou adolescente, distinta da parentagem biológica ou legal, que a antecede sem garanti-la. Organiza-se em papéis (autoridade, afeto, provisão) que podem se distribuir entre vários adultos, dentro ou fora do núcleo familiar. é a função de cuidar de uma criança que os dois geraram ou criam juntos. Quando o casamento termina, o subsistema conjugal se dissolve: não há mais razão estrutural para os dois dividirem casa, cama ou decisão sobre a própria vida a dois. O subsistema parental não tem como se dissolver do mesmo jeito. A criança continua existindo, e continua precisando de decisão conjunta sobre escola, saúde e rotina. Os dois adultos que decidem já não são mais um casal.
Essa mesma lógica já orienta a postura clínica de quem atende casal e família: o terapeuta não está a favor do casamento ou do divórcio, e sim do bom funcionamento dos sistemas conjugal e familiar. O texto sobre quem faz terapia de casal se separa detalha essa posição. O sistema familiar inteiro se reorganiza depois da separação, os subsistemas mudam de tamanho, e o que antes era um único lar passa a ser dois. O vínculo conjugal se encerra; a função parental permanece.
Duas casas, as mesmas duas funções para cada adulto
Muitos casamentos se organizam, ainda hoje, em torno de uma divisão complementar de papéis. Uma parte da casa sustenta majoritariamente o cuidado cotidiano da criança, a rotina, a saúde, os deveres escolares; a outra sustenta majoritariamente a provisão financeira e certas decisões estruturais. A origem dessa divisão na infância, e o modo como ela se transporta para dentro do casamento, já foi tratada em A construção da masculinidade no cuidado da casa. A crítica ao modelo do homem provedor e da mulher cuidadora está em 4 mitos do modelo tradicional de relação conjugal. Aqui interessa outra coisa: o que acontece com essa divisão quando o casamento termina.
Watzlawick, Beavin e Jackson descrevem esse tipo de arranjo como complementaridadePadrão de interação descrito por Watzlawick, Beavin e Jackson em que os participantes trocam comportamentos diferentes e encaixados entre si (um ocupa a posição de quem conduz, o outro a de quem responde), cada comportamento reforçando o do outro.: um padrão em que cada um ocupa uma posição diferente e encaixada com a do outro, e cada comportamento reforça o do parceiro (Watzlawick, Beavin, & Jackson, 1967). Quando essa divisão se fixa por anos, sem alternância de papel, os mesmos autores chamam de complementaridade rígida. É a mesma complementaridade que, dentro de um casamento em crise, pode travar um casal num ciclo de cobrança e retirada, descrito em O silêncio após a discussão de casal também é comunicação. Aqui o padrão é outro. Não é sobre um cobrar e o outro se afastar. É sobre a divisão do trabalho de cuidar e prover que os dois sustentaram juntos, e que funcionou bem o suficiente para nenhum dos dois precisar da metade que o outro cobria.
A separação dissolve o casamento como sistema único e cria dois lares separados, e cada um deles agora precisa cobrir as duas funções sozinho. Quem sempre cuidou passa a decidir e prover sem o outro por perto, às vezes sem nunca ter negociado um aluguel ou uma conta sozinho. Quem sempre proveu passa a cuidar da rotina no dia a dia, às vezes sem nunca ter resolvido, sozinho, uma crise de birra pela manhã. A estrutura familiarNa terapia estrutural de Minuchin, conjunto invisível de regras que organiza como os membros de uma família se relacionam (hierarquia, subsistemas e fronteiras entre eles) e que se repete de forma previsível nas interações cotidianas. se reorganiza (Minuchin, 1974), e a reorganização cobra de cada um algo que o casamento nunca exigiu: dar conta sozinho, em cada casa, das duas funções que antes eram divididas a dois.
Cada um ouve do outro que está sobrecarregado ou que não sabe cuidar, e a queixa se repete em espelho: a mesma acusação que um faz, devolvida no mesmo formato. É a escalada simétricaPadrão de interação descrito por Watzlawick, Beavin e Jackson em que os participantes tendem a espelhar o comportamento um do outro, minimizando a diferença entre eles: o mecanismo por trás da escalada simétrica de um conflito. descrita por Watzlawick, Beavin e Jackson (1967): cada um responde à crítica do outro com mais crítica, sem que nenhum recue primeiro. Nenhum dos dois aprendeu a função que falta agora: o casamento dividiu o trabalho bem o suficiente para que ninguém precisasse desenvolver a metade que o outro cobria. O conflito de coparentalidade que aparece nessa hora tem uma origem concreta: o preço de dividir, por anos, uma função que só funcionava a dois.
Um conflito de dois, resolvido às custas de um terceiro
Murray Bowen descreveu como um sistema emocional formado por duas pessoas tende à instabilidade sob pressão: a dupla se sente mais próxima quando exclui um terceiro, e mais tensa quando fica sozinha com o próprio conflito. Sob estresse, o casal desloca parte dessa tensão para uma terceira posição, formando o que Bowen chama de triangulaçãoNa teoria dos sistemas familiares de Bowen, mecanismo pelo qual uma relação de dois membros, sob tensão, recruta um terceiro para reduzir a ansiedade da díade. Em famílias, um filho costuma ocupar essa posição, embora outras configurações também sejam possíveis. (Bowen, 1978). Numa separação, o filho costuma ocupar esse terceiro lugar: absorve, no lugar dos pais, uma tensão que os dois não processam diretamente entre si.
Isso acontece de formas indiretas, quase sempre sem que os adultos percebam: perguntar à criança o que aconteceu na outra casa, comentar diante dela sobre o comportamento do outro pai ou mãe, esperar que ela relate, ou que tome partido. Em cada um desses gestos, o filho vira mensageiro de uma comunicação que os pais evitam trocar de frente, atravessando a fronteiraNa terapia familiar estrutural, fronteiras são regras que definem quem participa de cada interação e de que modo, regulando contato, informação, afeto e autonomia entre pessoas, subsistemas e a família e seu contexto. que deveria separar a geração dos pais da geração dos filhos. O resultado mais comum é a criança carregar um conflito que não sabe nomear: gostar dos dois, e sentir que gostar de um é trair o outro. O texto sobre fronteiras no sistema familiar detalha como esse tipo de limite se mantém, ou se rompe, em outras configurações de família.
Essa leitura vale para a reorganização comum do par parental depois de uma separação. Quando há violência, medo ou risco à criança, deixou de ser reorganização de par parental, e o encaminhamento é outro, fora do que este texto discute.
Na terapia, decidir juntos sem precisar voltar a ser casal
O que chega ao consultório costuma ser a necessidade de resolver um conflito. Mas cada um traz sua própria leitura do problema, e esclarecer esse conflito se torna a questão inicial do trabalho.
No consultório, o trabalho com esse par parental tem um objetivo prático: ajudar os dois a decidir sobre o que ainda precisa de decisão conjunta, como rotina, saúde e regras que não podem variar demais de uma casa para a outra. Fica fora dele a reconstrução do casamento e qualquer arbitragem sobre quem esteve certo no passado. Uma postura técnica sustenta esse trabalho: a parcialidade multidirecionadaNa terapia contextual de Böszörményi-Nagy, postura técnica em que o terapeuta se alia, em momentos diferentes da sessão, a cada membro da família (reconhecendo o que cada um carrega de legítimo), em vez de manter neutralidade ou tomar partido fixo de um só lado., descrita por Böszörményi-Nagy. O terapeuta se alia, em momentos diferentes da sessão, a cada um dos presentes, reconhecendo o que cada um carrega de legítimo, em vez de tomar partido fixo de um lado (Böszörményi-Nagy & Krasner, 1986).
Fora do consultório, o que sustenta esse tipo de acordo se parece com o que sustenta qualquer comunicação entre adultos que não compartilham mais intimidade. Existe clareza sobre o que precisa ser decidido junto, e sobre o que cada casa pode decidir por conta própria. O texto sobre comunicação não violenta na família descreve um caminho concreto para isso, que vale tanto dentro de um casamento quanto entre duas casas separadas.
Para o filho, a travessia entre as duas casas se sustenta num tipo de confiança parecido com o que sustentaria a relação com cada um dos pais se o casamento tivesse continuado. É saber que pode contar o que faz numa casa sem que isso vire arma na outra. É saber que as regras, mesmo diferentes entre as duas casas, não mudam conforme o humor de quem decide. O texto sobre confiança entre pais e filhos trata dessa mesma base, com ou sem separação.
A cena do início mostra o par parental funcionando, com o mínimo de atrito que a função exige: o carro parado, a mochila entregue, duas frases trocadas sobre o horário do médico. O que esse par carrega quando a tensão entre os adultos não foi resolvida, e o que sobra para o filho nessa hora, é outra conversa. Este texto só começa a abrir essa porta.
Referências
Böszörményi-Nagy, I., & Krasner, B. R. (1986). Between give and take: A clinical guide to contextual therapy. Brunner/Mazel.
Bowen, M. (1978). Family therapy in clinical practice. Jason Aronson.
Minuchin, S. (1974). Families and family therapy. Harvard University Press.
Watzlawick, P., Beavin, J. H., & Jackson, D. D. (1967). Pragmatics of human communication: A study of interactional patterns, pathologies, and paradoxes. W. W. Norton & Company.

