A abordagem sistêmica e o foco nos relacionamentos
Na abordagem sistêmica, o foco se amplia do indivíduo para os padrões presentes em suas relações. Na minha prática clínica, entendo que o sofrimento emocional não é "responsabilidade" de uma única pessoa, mas sim um sintoma de como o sistema (seja o casal, a família ou o ambiente de trabalho) está operando.
O foco aqui não é apenas o "porquê" de um comportamento, mas "como" a interação entre as partes mantém uma dinâmicaConjunto de padrões de interação, comunicação, papéis e distribuição de poder entre os membros de um casal ou de uma família, que se repetem e se reforçam ao longo do tempo e moldam como o sistema lida com conflito, mudança e cuidado mútuo. disfuncional, que é uma resposta do sistema no sentido de estabelecer uma homeostaseTendência de um sistema familiar a preservar um estado de equilíbrio interno, resistindo a mudanças que ameaçam os padrões de interação já estabelecidos, inclusive por meio do sintoma de um dos membros, que pode funcionar como regulador dessa estabilidade. (estabilidade). Entretanto, essa forma de sobrevivência do casal nem sempre é saudável para os envolvidos.
O cenário de Brasília: entre o "sim" e a separação
Os dados do IBGE (Estatísticas do Registro Civil) colocam o Distrito Federal em uma posição de destaque: somos a segunda região com a maior taxa de divórcios do país, e também a segunda com mais novos casamentos, atrás apenas de Rondônia. Esse movimento intenso na capital revela uma sociedade que valoriza as uniões, mas que também enfrenta rupturas precoces. O tempo médio entre o casamento e o divórcio no DF é de 12,9 anos, abaixo da média nacional.
Viver em Brasília exige uma adaptação constante das fronteirasNa terapia familiar estrutural, fronteiras são regras que definem quem participa de cada interação e de que modo, regulando contato, informação, afeto e autonomia entre pessoas, subsistemas e a família e seu contexto. familiares, especialmente em um ambiente de alta pressão profissional e social, típico da nossa região.
Desafios únicos para os relacionamentos no DF
As relações na capital enfrentam gargalos específicos que testam a resiliência do sistema conjugal todos os dias:
- Isolamento da rede de apoio: Muitos residentes em Brasília vieram de outros estados e não contam com o suporte presencial da família extensa, o que acaba sobrecarregando o parceiro ou a parceira. Sobre esse tema, recomendo o livro Famílias migrantes em Brasília, de Ana Carolina Martin Lopes e Maria Alexina Ribeiro.
- Carreiras de alta performance: A dedicação intensa ao setor público ou privado muitas vezes gera uma "triangulaçãoNa teoria dos sistemas familiares de Bowen, mecanismo pelo qual uma relação de dois membros, sob tensão, recruta um terceiro para reduzir a ansiedade da díade. Em famílias, um filho costuma ocupar essa posição, embora outras configurações também sejam possíveis." com o trabalho, onde a carreira acaba ocupando o espaço afetivo que deveria pertencer ao casal.
- Rigidez de papéis: A busca por estabilidade e o estilo de vida planejado da cidade podem criar padrões rígidos, dificultando a flexibilidade necessária para lidar com as mudanças naturais da vida a dois.

Como a psicoterapia pode contribuir para essa questão
Seja na terapia de casal ou na individual, meu objetivo no atendimento clínico no centro de Brasília é ajudar a mapear a sua história de relações afetivas, inclusive a de gerações passadas, para identificar os padrões disfuncionais transmitidos e avaliar as intervenções apropriadas.
- Na terapia de casal, trabalhamos o reconhecimento de conflitos, a renegociação de acordos e a clareza sobre o papel de cada um no sistema.
- Na terapia individual, o foco é fortalecer a autonomia do sujeito para que ele deixe de reproduzir padrões negativos de gerações passadas em seus novos vínculos.
Investir em psicoterapia é compreender que, mesmo em uma cidade com altos índices de divórcio, cujas características ativam uma necessidade de adaptação dos sistemas conjugais, é perfeitamente possível construir uma história com fundamentos sólidos, baseada na saúde emocional e no respeito mútuo.
Referências
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2022, 2024). Estatísticas do registro civil. IBGE. (Dados de casamentos e divórcios por unidade da federação)
Essa rigidez de papéis e a sobrecarga da rotina de Brasília costumam aparecer, na prática clínica, num padrão concreto: o casal discute e, depois, passa dias sem se falar direito. Em O silêncio após a discussão de casal também é comunicação, trato esse silêncio pós-briga como parte do sistema do casal, não como ausência dele, e diferencio a pausa reguladora do silêncio punitivo, a lei do gelo.

