Vladimir Melo · Psicologia Clínica

O silêncio após a discussão de casal também é comunicação

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Casal distante em casa

A discussão termina e se dá a ruptura na comunicação. Um dos dois lava a louça sem dizer nada, o outro fica no celular no sofá, e os dois cuidam para que nenhum gesto pareça um convite a retomar o assunto. Passam-se minutos, depois horas, às vezes um dia inteiro sem que se troque mais do que o estritamente necessário: "vou sair", "tem comida na geladeira". Quem olha de fora não poderia perceber facilmente a fratura na relação.

O silêncio também é comunicação

Um dos princípios centrais da teoria da comunicação, formulado por Paul Watzlawick e seus colegas de Palo Alto, é que é impossível não comunicar: mesmo o silêncio, dentro de uma relação, transmite alguma coisa (Watzlawick, Beavin, & Jackson, 1967). Um casal que para de falar depois de uma discussão não interrompeu a comunicação, apenas trocou de canal.

O problema é que esse canal costuma ser lido como se fosse um só, quando na prática cobre pelo menos três situações diferentes. Existe o silêncio que regula uma emoção e esta ainda não pode ser devidamente nomeada pelo calor do momento. Existe o silêncio de quem se retira porque a conversa deixou de parecer segura, o que pode ser um gatilho para cenas de outro período da vida. E existe o silêncio usado como instrumento, para fazer o outro pagar por algo.

As três produzem a mesma cena (a casa calada), mas cumprem funções muito diferentes no sistema do casal, e pedem manejos diferentes.

A função reguladora da pausa

A forma mais comum de silêncio pós-discussão é também a mais saudável: uma pausa breve, para deixar o corpo sair do estado de alerta antes de voltar a falar. Ninguém pensa com clareza no auge da ativação emocional, e insistir em resolver tudo ali, no calor da discussão, costuma piorar o que já estava difícil.

O que caracteriza essa pausa é o horizonte: ela tem prazo, mesmo que implícito, e os dois ficam na expectativa de que a conversa seja retomada. É o silêncio que serve à relação, não contra ela. Funciona melhor quando é nomeado ("preciso de um tempo, mas quero conversar sobre isso mais tarde") em vez de simplesmente acontecer, porque a diferença entre pausa e abandono, para quem espera do outro lado, nem sempre é óbvia.

A fuga em busca de proteção

Um segundo tipo de silêncio nasce não da necessidade de regular, mas da tentativa de se proteger de uma conversa que já dói demais. Aparece com frequência dentro de um padrão que a teoria sistêmica descreve como escalada complementarPadrão de interação descrito por Watzlawick, Beavin e Jackson em que os participantes trocam comportamentos diferentes e encaixados entre si (um ocupa a posição de quem conduz, o outro a de quem responde), cada comportamento reforçando o do outro. perseguidor-distanciador: quanto mais um lado cobra, reclama, busca contato, mais o outro se afasta, e quanto mais o outro se afasta, mais o primeiro cobra (Watzlawick et al., 1967).

Nessa sequência, nenhum dos dois está errado isoladamente. Cada reação alimenta a seguinte, e o casal fica preso num circuito em que os dois não conseguem mais se escutar.

Do lado de quem se retira, o silêncio funciona como escudo diante de uma sensação de sobrecarga, não como punição. Sustentado por tempo suficiente, esse padrão tende a enrijecer a fronteiraNa terapia familiar estrutural, fronteiras são regras que definem quem participa de cada interação e de que modo, regulando contato, informação, afeto e autonomia entre pessoas, subsistemas e a família e seu contexto. entre os dois (o assunto que parou de ser discutível, o tema que os dois evitam por acordo tácito), um mecanismo já descrito por Salvador Minuchin (1974) ao tratar de como limites dentro de um sistema familiar se tornam mais ou menos permeáveis conforme o uso.

O post sobre fronteiras no sistema familiar aprofunda o que acontece quando esse enrijecimento se torna crônico.

O tratamento de silêncio como punição

Existe um terceiro uso do silêncio, e é o que mais frequentemente traz sofrimento ao consultório: a ausência como instrumento de controle, também conhecido como tratamento de silêncio. Aqui a função muda de figura. Não é regular uma emoção, nem proteger-se de uma sobrecarga. É fazer o outro sentir o peso da distância até que ceda, peça desculpas ou volte a se comportar do jeito esperado.

A diferença entre os três silêncios está na função que aquele silêncio cumpre dentro do sistema. Quatro perguntas ajudam a diferenciar clinicamente a lei do gelo da pausa reguladora ou da retirada protetora: a quem esse silêncio serve, se tem prazo ou é indefinido, se é anunciado ou puramente unilateral, e principalmente, se cessa quando o outro cede. Quando o silêncio só termina depois que a outra pessoa se desculpa, recua ou faz alguma concessão, ele parou de ser autorregulação e passou a operar como manipulação.

Vale uma distinção adicional, porque as duas coisas se confundem no consultório: há quem se sinta paralisado em silêncio porque não consegue, de fato, processar e verbalizar o que sente no calor de um conflito (sobrecarga emocional legítima) e há quem calcule o silêncio como tática (retenção deliberada de fala para produzir efeito no outro). A primeira pede paciência e tempo. A segunda pede que o padrão seja nomeado dentro da relação, e não escondido atrás da ideia de que "ele só precisa de espaço".

Uma ressalva importa aqui, e não deve ser confundida com o restante desta seção: quando o silêncio vem acompanhado de medo, de intimidação ou de isolamento imposto (impedir contato com amigos e família, ameaçar, punir de outras formas além do silêncio), a situação deixou de ser um padrão de casal e se torna violência psicológica. Nesse caso, a resposta não é comunicação, é buscar apoio profissional e, se necessário, a rede de proteção disponível.

O que fazer com o silêncio depois da discussão

Antes de decidir o que fazer, vale nomear qual dos três silêncios está em curso, porque a resposta adequada muda conforme a função. Uma pausa reguladora pede tempo e um combinado simples sobre quando a conversa volta. Uma retirada protetora pede que o padrão perseguidor-distanciador seja reconhecido pelos dois, porque cobrar mais só empurra o outro para mais longe. E a lei do gelo pede que o padrão seja nomeado em voz alta, dentro da relação, como o que ele é.

O texto sobre comunicação não violenta na família traz um caminho concreto para retomar a conversa depois que o silêncio já cumpriu sua função de pausa. Quando o padrão se repete a cada discussão e o casal não consegue mais sair dele sozinho, esse é justamente o tipo de dinâmica que costuma levar duas pessoas a buscar psicoterapia de casal: não para eliminar o silêncio da relação, mas para que ele volte a servir aos dois, em vez de servir contra um deles.

O silêncio depois de uma discussão nunca é vazio. É um recado sobre o estado do sistema naquele momento, e o casal que aprende a diferenciar qual recado está sendo enviado, em vez de reagir só ao incômodo de não ouvir nada, tem mais chance de atravessar a briga sem que ela vire um padrão fixo entre os dois.

Referências

Minuchin, S. (1974). Families and family therapy. Harvard University Press.

Watzlawick, P., Beavin, J. H., & Jackson, D. D. (1967). Pragmatics of human communication: A study of interactional patterns, pathologies, and paradoxes. W. W. Norton & Company.

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