Há algumas décadas, os profissionais de marketing descobriram uma mina de ouro para incrementar as vendas de vários produtos: as crianças. Desde então, as empresas deixaram de mirar os pais e passaram a elaborar suas propagandas para as crianças. Os adultos de hoje se lembram perfeitamente de um anúncio clássico que estimulava os pequenos a distribuir pela casa bilhetes pedindo uma bicicleta. Provavelmente os pais daquela época não imaginavam onde essa situação poderia parar e encaravam as propagandas com muita simpatia.
Pais mais atentos à propaganda abusiva
Atualmente, existe uma consciência maior de que as crianças são, em muitos casos, os grandes consumidores do lar e os grandes influenciadores na aquisição de vários produtos. Alguns pais já conhecem o perigo de deixar seus filhos diante de uma tela durante horas sujeitos ao bombardeio de anúncios. Em razão disso, muitos pais já tentam restringir o tempo de exposição a televisão, computador, tablet ou celular. Porém, essa tarefa é cada dia mais complexa se considerarmos a necessidade de conectividade nos dias de hoje. Uma simples consulta no Google já resulta em exposição de anúncios.
Essa overdose de marketing sobre as crianças tem sido sentida na alimentação e, consequentemente, na saúde delas. O supermercado é um local onde proliferam anúncios para crianças. Isso ocorre desde a época em que os chocolates começaram a trazer surpresas, especialmente na época da Páscoa, e os cereais eram vendidos em embalagens super coloridas. Entretanto, nesses tempos ainda eram poucos os produtos que tinham como público as crianças. Atualmente, existem vários corredores com alimentos ultraprocessados e cheios de gordura saturada empacotados com o desenho de personagens infantis. Essa não é a causa da obesidade em crianças, mas sabemos que elas são vítimas indefesas desse ataque das empresas de alimentos. Em consequência, esse tipo de marketing exerce uma influência extremamente negativa nos hábitos alimentares delas.
Os exemplos a seguir
A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem reforçado reiteradamente, desde 2010, a recomendação de que seus Estados Membros tomem medidas para restringir a publicidade de alimentos não saudáveis para as crianças (ver recomendação da OMS). No Brasil, a Resolução 163/2014 do Conanda considera abusiva a publicidade dirigida à criança com a intenção de persuadi-la ao consumo. Além da atuação das autoridades, é necessário que a sociedade se organize e comece a refletir como essa política de marketing pode ser combatida.
Em 2016, um levantamento do Food Tank listou oito países que já haviam tomado iniciativas para proteger as crianças da publicidade indevida para a idade delas: Canadá, Chile, França, Irlanda, México, Noruega, Taiwan e Reino Unido. O México enfrentava, na época, uma situação particularmente delicada quanto a esse tema, pois era um dos países com maior carga de obesidade infantil no mundo.
Limitar a publicidade é uma disputa que se trava fora de casa, mas o que chega à mesa depende também do que a família consegue sustentar dentro dela. Em A obesidade infantil regulando gerações na família, examino como o hábito alimentar se transmite entre gerações e por que o sintoma de uma criança costuma dizer respeito ao sistema inteiro, e não a uma escolha isolada.

