Vladimir Melo · Psicologia Clínica

Por que criar uma rotina é tão importante?

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Diversos guias de saúde mental enfatizam a importância de estabelecer uma rotina para o bem-estar psicológico. Antes mesmo disso, best-sellers como Arrume a sua cama (William McRaven) e outros atribuem à rotina o segredo do sucesso. No entanto, não fica claro o que torna essa organização doméstica uma grande vantagem no cotidiano de uma pessoa.

Precisamos de marcadores temporais

Os gestores de tempo adoram comprimir o dia numa lista de tarefas e supervalorizam a produtividade, como se não houvesse nada na vida além do trabalho. No entanto, todos necessitam de marcadores temporais para dividir o dia em momentos distintos e, assim, construir referências dentro das 24 horas.

Hábitos, deslocamento e mudança de ambiente ajudam na construção desses marcadores. Trocar de roupa para começar o dia, se deslocar e chegar na escola ou no ambiente de trabalho funcionam como marcadores. Anoitecer e sair do trabalho, principalmente, marcam a transição do ambiente de trabalho para casa. Quando esses marcadores desaparecem — como aconteceu em larga escala durante o home office e o ensino remoto da pandemia —, crianças e adultos deixam de saber quando estão em família e quando estão estudando ou trabalhando.

A dificuldade de manter uma rotina diante de demandas não programadas é uma das queixas mais frequentes no consultório. Entre agendas de trabalho, escola e casa que raramente se alinham, as famílias precisam conciliar interesses diferentes dentro do mesmo teto e, por isso, buscam constantemente estabelecer referências e hábitos que promovam uma vida saudável.

Precisamos de limites

Outro grande problema por trás da falta de rotina é a ausência de limites. Já se falava de uma sociedade que não consegue estabelecer limites, e o cotidiano sem fronteiras claras entre casa e trabalho tornou ainda mais visível o quanto eles são importantes.

Da dificuldade de sustentar acordos combinados até a marcação de fronteirasNa terapia familiar estrutural, fronteiras são regras que definem quem participa de cada interação e de que modo, regulando contato, informação, afeto e autonomia entre pessoas, subsistemas e a família e seu contexto. dentro de casa, percebe-se como isso merece cada vez mais atenção nos nossos tempos. As famílias discutem para redefinir espaços, tarefas e restrições no ambiente doméstico. A rotina é uma síntese estruturada desses limites. Um deles que tem se destacado é o limite na alimentação, e como parece difícil criar uma nova rotina alimentar em casa, sem acesso ilimitado a doces, por exemplo.

Os pais também reclamam que os filhos querem uma relação sem limites com dispositivos eletrônicos para lazer e não conseguem ficar diante dessas telas para estudar.

De fato, esse tema não é novidade e o que existe agora é um sintoma social alarmante que revela o sofrimento de lidar com qualquer tipo de restrição. A rotina saudável representa também um certo nível de proibição. Mais ainda, requer um grande nível de sensatez para que não se exagere na dose.

A rotina é uma ficção necessária

Sendo assim, a rotina é fundamental para manter a sanidade porque é nela que se encontram os limites e as referências para o mínimo de ordem psíquica. Os marcadores temporais, tão difíceis de serem cravados em ambiente interno sem a luz solar, são trilhas mentais para fazer funcionar aquilo que não pode parar. A rotina é uma ficção necessária, pois não é uma realidade em si, mas uma construção estruturante da nossa ação no mundo.

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