O ninho vazio no ciclo de vida familiarSequência previsível de estágios pelos quais a maioria das famílias passa ao longo do tempo — casamento, chegada de filhos, adolescência, saída de casa dos filhos, envelhecimento — cada um exigindo reorganização de papéis, fronteiras e vínculos para a família seguir adiante.
A exemplo de várias teorias da psicologia que estudam desenvolvimento, a Terapia Familiar também tem se dedicado a estudar o desenvolvimento da família (Carter & McGoldrick, 1995), referência para a compreensão dos fenômenos do ciclo de vida familiar. A obra, hoje em sua 5ª edição (McGoldrick, Garcia Preto & Carter, 2016), passou a descrever esse ciclo como uma trajetória não linear, atravessada por classe social, gênero e cultura, em vez de uma sequência fixa de estágios. Um desses fenômenos está bastante presente em matérias de jornais e revistas e é conhecido como "ninho vazio".
O ninho vazio não constitui propriamente um estágio do ciclo de vida familiar, mas é considerado um fenômeno que ocorre na fase em que os filhos alcançam a idade adulta, formam seus próprios núcleos familiares e os pais voltam a ficar sós.
A solidão torna-se a perspectiva de muitos casais que perderam a cumplicidade e intimidade ao longo da vida devotada aos filhos. O ninho vazio poderia representar um momento de liberdade, tranquilidade e retomada dos projetos do casal. Porém, em geral representa um vazio afetivo, sobretudo porque muitas vezes coincide com a proximidade da aposentadoria e doença ou perda dos próprios pais.
Adaptação à "nova" relação conjugal
Esse fenômeno da meia-idade tende a ser cada vez mais comum por causa do envelhecimento da população no Brasil e no mundo, o mesmo cenário demográfico que atravessa o trabalho do terapeuta sistêmico com famílias mais velhas. Além disso, os netos já demoram mais a chegar, criando um intervalo maior entre três gerações.
A expectativa frustrada de que netos preencham o vazio deixado por filhos tem levado muitos casais à separação ou criado enormes dificuldades para a continuidade da vida a dois.
Além disso, o aumento da expectativa de vida tanto para homens como para mulheres tornou necessário um novo sentido de vida para as pessoas que chegaram nessa etapa do desenvolvimento.
A difícil adaptação ao ninho vazio é um fator de vulnerabilidade para a depressão, que por sua vez representa um risco maior para pessoas idosas.
As questões relacionadas ao ninho vazio decorrem de transformações recentes da sociedade e da família, para as quais não existem soluções instantâneas. O que é certo é a importância de cuidar da relação conjugal em todas as etapas do ciclo de vida familiar, pois dirigir excessivamente a atenção para outras questões pode custar caro mais adiante.
Esse desvio da relação conjugal para um terceiro é conhecido na Terapia Familiar como triangulaçãoNa teoria dos sistemas familiares de Bowen, mecanismo pelo qual uma relação de dois membros, sob tensão, recruta um terceiro para reduzir a ansiedade da díade (quase sempre um filho, quando o casal está em jogo). e ocorre com frequência, mas não deve se tornar um padrão na relação do casal sob o risco de torná-los estranhos um para o outro.
O ninho vazio na jornada do casal
A relação conjugal merece atenção durante todos os estágios do ciclo de vida familiar, demandando do casal uma série de tarefas. Assim, eles podem se adaptar aos diversos contextos que surgem no desenvolvimento da família. Caso isso não ocorra a contento, a terapia de casal é indicada. O ninho vazio ocupa um período de transição entre os estágios da família e reflete como o casal enfrentou as etapas anteriores do seu desenvolvimento.
Referências
CARTER, Betty; McGOLDRICK, Monica. As mudanças no ciclo de vida familiar. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 1995.
McGOLDRICK, Monica; GARCIA PRETO, Nydia; CARTER, Betty. The Expanding Family Life Cycle: Individual, Family, and Social Perspectives. 5th ed. Boston: Pearson, 2016.

