Nos últimos anos, o tema do suicídio passou a ser discutido com mais frequência na mídia, por especialistas e por profissionais de saúde mental. O avanço em relação ao tabu que cercava o assunto é real, mas o discurso público tende a eleger um único responsável pelo fenômeno, e a internet costuma ocupar esse lugar.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o suicídio é a terceira causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo. É um tema que pede cuidado com o que se afirma, inclusive sobre suas causas.
Quem atravessa um momento de sofrimento intenso, ou pensamento de suicídio, pode buscar apoio emocional gratuito e sigiloso no Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, chat ou e-mail, disponível 24 horas por dia, todos os dias. O mesmo vale para quem observa esse sofrimento em alguém próximo e não sabe como agir.
A internet não é a única causa
O suicídio sofre a influência de múltiplos fatores, e isolar uma única causa não ajuda a compreender o fenômeno nem a preveni-lo. A questão mais relevante é como, e onde, os adolescentes expressam (quando expressam) o sofrimento que precede o suicídio, já que ele representa o fim de uma dor que se tornou insuportável.
Uma discussão recorrente na imprensa, como na coluna de Eliane Brum no El País, atribui à internet a responsabilidade principal pelo aumento do sofrimento adolescente. A internet participa desse cenário, mas não é a causa isolada.
A internet não é o vilão desse cenário. A dificuldade maior está em os adultos aceitarem que esse universo já é parte da realidade dos adolescentes. Reconhecer isso desloca o eixo: em vez de proibir o uso de dispositivos, o que raramente surte efeito, abre-se espaço para entender como os jovens se comunicam hoje, e para sustentar a confiança entre pais e filhos que torna essa conversa possível.
A falta de mediação no ambiente virtual
Zygmunt Bauman descreveu o enfraquecimento dos vínculos duráveis como um traço da vida contemporânea, a modernidade líquida. O conceito ajuda a nomear o cenário, mas o papel da internet nas relações entre pais e filhos é mais concreto do que a metáfora da liquidez: é uma questão de fronteirasNa terapia familiar estrutural, fronteiras são regras que definem quem participa de cada interação e de que modo, regulando contato, informação, afeto e autonomia entre pessoas, subsistemas e a família e seu contexto., ou seja, de quem participa da conversa sobre o sofrimento do adolescente, e sob que regra.
A internet costuma ser hoje o lugar onde adolescentes (e adultos) conseguem expressar o próprio sofrimento. Falta, no entanto, uma figura de mediação capaz de sustentar essa expressão de forma segura.
Esse espaço de continência para as emoções também acontece nos grupos de WhatsApp, e ali também não há qualquer estrutura para lidar com as inquietações que sempre surgem.
A mediação das relações nesse espaço de possibilidades quase infinitas que é a internet exige reflexão e investimento, não apenas regra.
A restrição do uso da internet pode ser necessária em certos contextos, mas não se confunde com proibição. A internet hoje é parte da infraestrutura da vida cotidiana, e estará cada vez mais presente como ferramenta de trabalho.
Os adolescentes expressam emoção nesse universo, sobretudo por meio de emojis e códigos próprios. Decifrar essa linguagem, e não ignorá-la, é o que permite aos pais compreender a dor dos filhos.
Decifrar a dor, não condenar
A visibilidade que os adolescentes buscam acontece ao vivo, nas redes sociais. Fora delas, é difícil ter acesso ao que sentem, e isso não muda pela proibição do acesso à internet. O caminho não é condenar a suposta fraqueza dos jovens, mas decifrar os códigos com que eles dizem o que sentem, e, a partir dessa leitura, compreender melhor o próprio tempo.
Quem sente que este texto tocou uma dor real pode buscar o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, chat ou e-mail, com escuta gratuita e sigilosa, 24 horas por dia.
Referências
Bauman, Z. (2001). Modernidade líquida (P. Dentzien, Trad.). Jorge Zahar.
Organização Mundial da Saúde. (2025, 25 de março). Suicide [Fact sheet]. OMS.

