Do fato escondido à organização da relação
Em Imber-Black (1994, p. 21), o segredo deixa de ser apenas uma informação retida e passa a ser lido como fenômeno relacional: configura díades e triângulos, forma alianças encobertas e define quem fica dentro e quem fica fora de uma família ou de um casal. A leitura sistêmica olha primeiro para a organização que se forma em volta do fato escondido: quem sabe, quem desconfia, quem foi poupado, quem guarda uma parte da história.
O lugar do segredo também orienta a escuta. Segundo Imber-Black (1994, pp. 32–33), ele pode estar com uma pessoa, entre duas ou na família inteira, onde todos sabem e fingem não saber, e saber onde ele está orienta o que o atendimento pode perguntar.
Segredo e privacidade
Uma pessoa deixa de contar muitas coisas, e só algumas delas são segredo. A distinção entre segredo e privacidade aparece em Karpel (1980) e em Bok (1983), como citados em Imber-Black (1994, pp. 30–31), junto com um dilema que permanece em aberto: quem decide em que lado fica cada informação. Karpel (1980, como citado em Imber-Black, 1994, p. 31) propõe que a distinção dependa da relevância da informação para a pessoa que a desconhece. Imber-Black lembra que reivindicar privacidade depende também de poder, e o mesmo fato pode mudar de categoria conforme quem o descreve.
Para o conceito de limite entre pessoas e subsistemas da família, ver FronteirasNa terapia familiar estrutural, fronteiras são regras que definem quem participa de cada interação e de que modo, regulando contato, informação, afeto e autonomia entre pessoas, subsistemas e a família e seu contexto..
Na clínica
Examinam-se a função que o segredo cumpre e também o seu custo (Imber-Black, 1994, pp. 24 e 26). Segundo a autora, apoiada em Karpel (1980), a presença de um segredo central "distorce e mistifica os processos de comunicação" (p. 24). Soma-se a vigilância para que ele não escape, com a ansiedade e a culpa que acompanham essa guarda (p. 26).
O dilema de revelar permanece dilema: revelar alguns segredos cura, enquanto revelar outros pode pôr pessoas em perigo (Imber-Black, 1994, p. 16). A autora pede que as consequências, positivas e negativas, sejam avaliadas antes de qualquer revelação, e lembra que o trabalho depois dela é longo (pp. 35–37). Há ainda as revelações em cadeia: a revelação de um segredo pode levar à emergência de outros (p. 37).
A lealdade ao silêncio também pesa. O compromisso de manter um segredo estreita a definição de lealdade familiar, e as lealdades entre gerações costumam ser moldadas por segredos (Imber-Black, 1994, p. 21).
Referências
Imber-Black, E. (1994). Segredos na família e na terapia familiar: Uma visão geral. In E. Imber-Black (Org.), Os segredos na família e na terapia familiar (D. Batista, Trad., pp. 15–39). Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1993)