A depressão é uma doença que tem um início silencioso, sem sintomas claros que levem a pessoa ao médico ou psicólogo. Somente quando compromete a capacidade produtiva do indivíduo que passa a ter mais visibilidade. A partir desse ponto, já pode afetar de maneira significativa a qualidade de vida do paciente.
Dentre os sintomas da depressão, estes quatro são os mais indicativos do transtorno e, de modo geral, se manifestam em conjunto. Caso você se perceba assim ou observe os seguintes sintomas em alguém próximo, considere marcar uma consulta psiquiátrica ou psicológica para verificar se realmente se trata de depressão. Quanto antes começar a tratá-la, menores serão as intervenções e maiores as chances de se recuperar rapidamente.
1. Irritabilidade e pensamentos negativos persistentes
Quando uma pessoa passa a apresentar uma irritabilidade frequente, sob a forma mau-humor e pensamentos negativos persistentes, há a possibilidade de que esteja desenvolvendo um episódio de depressão. Existem personalidades melancólicas que adotam desde cedo uma perspectiva sombria na vida ou esse ponto de vista pode também ser motivado por algum evento estressor, ou seja, fruto de uma circunstância específica. No entanto, é um comportamento que deve ser acompanhado de perto, pois pode evoluir para um sofrimento preocupante que coloque em risco a própria vida.
Quem atravessa um sofrimento intenso, com pensamentos que coloquem a própria vida em risco, pode buscar apoio emocional gratuito e sigiloso no Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, chat ou e-mail, disponível 24 horas por dia, todos os dias.
2. Alterações no apetite com expressivo ganho ou perda de peso
Sobre o ganho ou perda de peso, é importante observar se o sintoma não está vinculado a um transtorno alimentar (obesidade, bulimia ou anorexia). Se ele estiver associado a outros sintomas desta lista, possivelmente sugere um quadro de depressão, mas é bastante comum que a própria depressão apareça como uma manifestação secundária de outras doenças, como é o caso da obesidade, tendo em vista que o excesso de peso ocasiona grande prejuízo para a autoestima.
Em geral, quando se trata de depressão, a perda ou ganho de peso tem relação com a falta de outros prazeres na vida e pode ocorrer juntamente com a ausência de interesse por atividade física e vida social.
3. Alteração no sono
Além da alteração no apetite, a depressão também causa impacto na rotina de sono da pessoa. Sobretudo quando surge com sintomas de ansiedade, pode causar um sono fragmentado, insônia ou sonolência excessiva. São frequentes os relatos de dificuldade para dormir e forte indisposição no período da manhã. A sensação de apatia na hora de despertar pode interferir na produtividade, o que indica um estágio mais grave da depressão. Cada vez mais as pessoas aderem a práticas meditativas ou a sessões de acupuntura para tratar dessa questão. De todo modo, é fundamental adotar uma higiene do sono e, muitas vezes, recorrer a uma consulta psiquiátrica para que a pessoa seja capaz de retomar a sua rotina.
4. Ausência de interesses e vida social
Um sinal preocupante de depressão ocorre quando a pessoa abandona tudo aquilo que lhe proporcionava prazer e deixa de lado a vida social. Esse isolamento costuma surgir acompanhado pelos pensamentos negativos. Se a vida deixa de valer a pena e a pessoa passa a sofrer com o que antes lhe fazia se sentir bem, é um motivo para ficar mais atenta à depressão. Vale lembrar que isso pode ocorrer no processo de luto, quando a perda provoca um desinteresse momentâneo na vida, porém isso costuma ser superado em poucas semanas. Por causa desse isolamento, o depressivo tem dificuldade de buscar ajuda, inclusive especializada, necessitando o monitoramento e o suporte de uma pessoa próxima para não ter o seu quadro agravado.
O olhar sistêmico sobre a depressão
A depressão é um quadro clínico, com sofrimento real de quem a vive, e a abordagem sistêmica não a reduz a um problema da família nem a explica pelas relações. O que ela acrescenta é a atenção ao contexto em que os sinais surgem e se mantêm: as relações próximas, as rotinas, os papéis que cada um ocupa e o momento da vida em que a pessoa se encontra.
Nessa leitura, o sintoma e as relações se influenciam nos dois sentidos, o que a circularidadePrincípio que descreve as interações num sistema familiar como uma cadeia de influências recíprocas, e não como uma sucessão linear de causa e efeito: cada resposta de um membro realimenta o comportamento dos demais, formando um ciclo sem um único ponto de origem. descreve. A irritabilidade, o cansaço e o isolamento mudam a maneira como os outros respondem: alguns se afastam, outros cobram, outros assumem tudo no lugar da pessoa. Essas respostas, mesmo quando nascem do cuidado, podem reforçar o retraimento. No sentido inverso, relações marcadas por conflito prolongado também pesam sobre o humor. Um estudo com 904 adultos casados, acompanhados por um ano, encontrou associação entre insatisfação conjugal e maior incidência de episódio depressivo (Whisman & Bruce, 1999). É uma associação, e não uma atribuição de culpa: ninguém provoca a depressão de outra pessoa, e o achado indica um contexto que merece atenção no tratamento.
As transições do ciclo de vida familiarModelo usado para compreender as transições, tarefas e desafios recorrentes ao longo da trajetória das famílias, como a chegada de filhos, a adolescência ou a saída de casa dos filhos. Essas transições não seguem necessariamente uma sequência única ou linear, podendo variar conforme a história, a cultura e a configuração de cada família., como o nascimento dos filhos, a saída deles de casa, a separação, o luto e a aposentadoria, reorganizam papéis e vínculos (Carter & McGoldrick, 1995). Os sinais descritos acima podem surgir ou se agravar nesses momentos, e reconhecer essas transições ajuda a entender o que sustenta o quadro e o que a pessoa precisa em cada período.
O isolamento descrito no quarto sinal dificulta a busca por ajuda. Por isso, a rede social pessoalConceito de Carlos Sluzki (1997) para o conjunto de vínculos significativos de uma pessoa além da família nuclear, que sustenta funções distintas (companhia social, apoio emocional, orientação, ajuda material e acesso a novos contatos) raramente concentradas num único vínculo., isto é, os vínculos significativos além da família nuclear, como amigos, colegas e vizinhos, passa a ser um recurso a mobilizar, e não apenas um cenário a observar.
Na psicoterapia individual, esse olhar orienta o trabalho sobre as relações em que o sintoma se organiza e sobre quem pode ajudar. Quando indicado, o atendimento pode incluir o companheiro ou a companheira, ou outros familiares, sem atribuir a ninguém a responsabilidade pelo quadro. A psicoterapia pode ser combinada, quando necessário, com acompanhamento psiquiátrico, e a escolha depende de cada caso.
Referências
Carter, B., & McGoldrick, M. (1995). As mudanças no ciclo de vida familiar (2a ed.). Artmed.
Whisman, M. A., & Bruce, M. L. (1999). Marital dissatisfaction and incidence of major depressive episode in a community sample. Journal of Abnormal Psychology, 108(4), 674–678. https://doi.org/10.1037/0021-843X.108.4.674

