Vladimir Melo · Psicologia Clínica
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Brilho eterno: recordar, repetir e elaborar a dois

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Este texto contém spoilers.

[Charles Kaufman](https://pt.wikipedia.org/wiki/CharlieKaufman) demonstra em seus filmes compreender profundamente a linguagem mais profunda do psiquismo, o inconsciente, que foi primeiramente apresentada por Freud pelo fenômeno dos sonhos. Em um de seus filmes, **Brilho eterno de uma mente sem lembranças** (Eternal Sunshine of the Spotless Mind_, 2004), Kaufman mergulha na mente de um personagem durante o sonho para capturar as lembranças de um relacionamento.

Joel, interpretado por [Jim Carrey](https://pt.wikipedia.org/wiki/JimCarrey), queria apagar as lembranças de Clementine, interpretada por [**Kate Winslet**](https://pt.wikipedia.org/wiki/KateWinslet), da sua mente. Os funcionários da clínica procurada por Joel realizam esse procedimento enquanto ele dorme, porém ao entrar em contato com as recordações da ex-namorada, Joel se arrepende e, sem conseguir acordar, precisa criar recursos para mantê-la viva dentro de si.

Cena 1: A última recordação

Um recurso interessante explorado por Kaufman é a capacidade de Joel interagir criticamente com a recordação. A sua última lembrança é do momento em que conheceu Clementine. Ao mesmo tempo em que se lembra da cena, ele também fala da sua percepção sobre ela. Em determinado momento, ela diz: Daqui a pouco vai acabar. Joel responde: Eu sei. Clementine então pergunta: E o que faremos? Ele arremata: Vamos aproveitar! Aqui não se trata do diálogo do dia em que se conheceram, mas da aproximação da morte dela na mente dele. Resignado com a impossibilidade de retê-la, ele constrói uma metáfora derradeira que dá um novo sentido ao relacionamento do casal, que é a cena seguinte.

Cena 2: a casa de praia

Joel e Clemetine caminham pela praia à noite e encontram uma casa de praia abandonada, que começa a ruir. Eles entram e, enquanto Clementine explora a casa, Joel se mostra receoso. A casa segue desabando e ele avisa que vai embora. Ali começam a falar dos medos de Joel de se envolver com Clementine e de como gostariam de ter feito mais para a relação dar certo.

Ele reconhece que fugiu dela, que se sentiu inseguro e, ao deixar a casa correndo, recebe um chamado de Clementine: E se você ficasse dessa vez? Ao responder que não lhe sobrou lembranças, ela insiste: Volte e vamos inventar que tivemos uma despedida. Ao se declarar para ela (Eu te amo), a mente de Joel se vale de um último recurso para mantê-la viva quando ela lhe diz: Encontre-me em Montauk. Depois dessa cena, Joel acorda sem lembrar da existência de Clementine, mas "inexplicavelmente" falta ao trabalho e pega um trem para Montauk, onde a encontra e a conhece pela segunda vez.

Cena 3: segunda chance

Após se conhecerem pela segunda vez, Joel e Clementine têm acesso às fitas que gravaram quando buscaram a clínica para apagar recordações, em que falam o que não gostam um no outro. Embora se sintam atraídos, Clementine fala que ficará entediada e que ele encontrará defeitos nela. Nesse momento, recai sobre ambos uma convicção de que a relação conjugal é imperfeita, insuficiente e incompleta. Somente é possível seguir na relação abrindo mão do mito das duas metades da laranja e assumindo o inexorável e permanente processo de construção-desconstrução-reconstrução. Ao mesmo tempo que é fundamental a aceitação do processo de mudança, também é necessária a aceitação de que algo não é passível de negociação e deverá ser tolerado. Por isso, Joel e Clementine terminam com risadas conformadas e esperançosas de tudo bem. Como diz Paulo Mendes Campos: "(...) nem toda sabedoria tem de ser profunda. Há uma sabedoria social ou de bolso."

A crise é o lugar comum da relação conjugal e, ao final, o que se mostram decisivos são os recursos para a resolução de conflitos. A resiliência não é uma habilidade dada, mas arduamente construída como resultado de coragem e dedicação. Aos evitativos, aqui recomendo uma [entrevista sobre o tema com o psicanalista Christian Dunker](https://www.youtube.com/watch?v=9gDBbzcFxJ0), não há outro caminho senão a eterna busca movida pela ilusão de um ideal de par perfeito.

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