Telas e hiperconectividade
É possível conhecer alguém pelos seus sintomas e o mesmo vale para a sociedade.
Entre os transtornos mais frequentes neste primeiro quarto do século XXI, podemos listar os transtornos de ansiedade e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). A dificuldade de concentração, inclusive, já era uma questão preocupante nos anos anteriores à pandemia e piorou muito nos tempos de confinamento e estudo/trabalho remoto. Grande parte dessa dificuldade é atribuída às telas e à hiperconectividade, que proporcionam uma demanda contínua e sem descanso.
Um exemplo desse problema vem do Vale do Silício, onde executivos de empresas de tecnologia limitam deliberadamente o acesso dos próprios filhos a telas. Um caso relatado é o da Waldorf School of the Peninsula, na Califórnia, escola frequentada por filhos de funcionários de empresas como Google, Apple, Yahoo e eBay, que restringe o uso de dispositivos eletrônicos até o ensino médio. A Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças com menos de 2 anos não sejam expostas a telas, e que crianças de 2 a 5 anos passem, no máximo, uma hora por dia diante delas.
Remédios para impulsionar a performance
Com o crescimento de diagnósticos de TDAH, aumentam também as prescrições de medicações como as anfetaminas. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine mostrou que pacientes que iniciam o tratamento com anfetaminas têm o dobro do risco de psicose em comparação aos que iniciam com metilfenidato. Além disso, as anfetaminas e os metilfenidatos oferecem outros riscos: podem levar a problemas circulatórios, e o uso crônico, a problemas cognitivos. O dimesilato de lisdexanfetamina, mais conhecido pelo nome comercial Venvanse, ganhou popularidade e tem sido usado, fora da indicação médica, para tentar melhorar o desempenho na escola e no trabalho.
O meio escolar antecipa a competição e cobra performance desde cedo, o que ajuda a explicar por que o uso desses estimulantes é frequente entre estudantes sob pressão acadêmica. Um levantamento com estudantes de medicina brasileiros encontrou uso não prescrito de metilfenidato buscado, sobretudo, como recurso para melhorar o desempenho nos estudos. O próprio levantamento, no entanto, não encontrou evidência de que o uso sem prescrição melhore esse desempenho: os estudantes que nunca usaram o medicamento tiveram resultado acadêmico superior.
Aceleração e exaustão
No entanto, a dificuldade de concentração e a busca por desempenho não são os únicos motivos para o crescimento no consumo de anfetaminas. O professor Erikson Felipe Furtado, psiquiatra da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), alertou para o perigo de associar essas medicações com o álcool, prática que tem crescido entre jovens como forma de lazer e que pode elevar o risco de dependência.
Endocrinologistas prescrevem anfetaminas em larga escala nos tratamentos de obesidade e emagrecimento em geral. O tema divide médicos e ainda está em discussão em várias entidades, porém não há dúvidas quanto à longa lista de efeitos colaterais. A própria questão dos sintomas alimentares revela uma sociedade incapaz de descansar para comer e, tirando proveito desse cenário, a indústria de alimentos multiplica seu faturamento por meio de substâncias aditivas que causam prejuízos à saúde.
Byung-Chul Han abordou esse ritmo de vida em livros como Sociedade do Cansaço e Vita Contemplativa ou sobre a Inatividade. Neste último, o autor afirma que até o descanso está a serviço do trabalho, porque tem como função recuperar o indivíduo para aumentar sua produtividade. Hartmut Rosa, em Alienação e Aceleração, também discute os riscos dos processos acelerados para a qualidade de vida no mundo contemporâneo.
Entre sintomas e remédios
Em suma, reunimos evidências de que, cada vez mais, a sociedade está produzindo, desde a infância, indivíduos desconcentrados, hiperconectados e exaustos. Em resposta, essa mesma sociedade lhes oferece estimulantes para impulsionar a performance. O que não se pode perder de vista é que a sociedade acelerada impulsiona os transtornos e remédios em questão, tema que se aprofunda na discussão sobre impaciência crônica na era digital. Em outras palavras, os sintomas mais frequentes e as soluções para eles descrevem a mentalidade da época em que vivemos.
Referências
Bilton, N. (2014, setembro 11). Steve Jobs was a low-tech parent. The New York Times.
Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço (E. P. Giachini, Trad.). Vozes.
Han, B.-C. (2023). Vita contemplativa ou sobre a inatividade. Vozes.
Jornal da USP. (2022, agosto 23). Medicamento para tratar déficit de atenção misturado com álcool coloca em risco a saúde dos jovens.
Moran, L. V., et al. (2019). Psychosis with methylphenidate or amphetamine in patients with ADHD. New England Journal of Medicine, 380(12), 1128–1138.
Nasário, B. R., & Matos, M. P. (2022). Uso não prescrito de metilfenidato e desempenho acadêmico de estudantes de medicina. Psicologia: Ciência e Profissão.
Organização Mundial da Saúde. (2019). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. OMS.
Richtel, M. (2011, outubro 22). A Silicon Valley school that doesn’t compute. The New York Times.
Rosa, H. (2022). Alienação e aceleração: Por uma teoria crítica da temporalidade tardo-moderna (F. R. Lucas, Trad.). Vozes.
Contra essa aceleração, a estrutura mais simples costuma ser a mais subestimada. Em Por que criar uma rotina é tão importante, examino o que a organização do dia sustenta em termos de saúde mental e convivência.

