Psicólogo Vladimir Melo - Artigo sobre Borderline

Amar sem se perder com um borderline

Viver um relacionamento com alguém que tem o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é, para muitos, a definição de viver em uma montanha-russa emocional. Em um momento, há uma conexão profunda e apaixonada. No outro, uma tempestade de angústia e conflito que parece não ter fim.

Se você se sente exausto(a) ou confuso(a), saiba que essa sensação tem explicação. Entender a lógica por trás dessas emoções é o primeiro passo para recuperar o equilíbrio.

Por que as emoções são tão intensas?

Imagine viver “em carne viva”. Para quem tem o diagnóstico de borderline, as emoções não possuem filtro. Viver nos extremos significa que pequenos desentendimentos podem ser sentidos como dores insuportáveis. Isso acontece devido a três feridas centrais:

  1. O medo do abandono: Qualquer sinal de distanciamento (mesmo que seja apenas um atraso para o jantar) pode disparar um pânico desesperador.
  2. Autoimagem instável: A pessoa muitas vezes não sabe quem é, oscilando entre se sentir incrível ou sem valor nenhum.
  3. Impulsividade: Uma tentativa de aliviar a dor interna através de comportamentos imediatos e, por vezes, autodestrutivos.

O diagnóstico do transtorno é de competência exclusiva dos profissionais de saúde mental (psicólogo e psiquiatra). Por esse motivo, se houver alguma suspeita, a pessoa deve ser encaminhada a uma avaliação.

Continência e a necessidade de um porto seguro

O psicanalista Wilfred Bion trouxe uma ideia valiosa para essas situações: a continência.

“Conter”, nesse sentido psicanalítico, significa ser capaz de receber o transbordamento emocional do outro, processar aquela angústia caótica e devolvê-la de forma mais organizada. É como ser o copo que segura a água que está transbordando. Quando você não reage à raiva com mais raiva, você mostra que é um porto seguro que sobrevive à tempestade.

Há uma tendência natural a ser reativo diante da raiva de um borderline, o que é compreensivo quando a pessoa não faz ideia de onde vem a agressividade e precisa se defender. No entanto, entender que aquele sentimento tem a ver com insegurança e instabilidade, e não algo pessoal, pode favorecer uma atitude mais empatica e acolhedora da parte de quem convive com o borderline.

Essa atitude faz toda a diferença na relação. Quando a outra pessoa é reativa, o borderline tende a escalar na raiva e ter comportamentos impulsivos e autodestrutivos.

Transtorno de Personalidade Borderline - Objetos Cortantes (2018)

O limite como autopreservação

Aqui entra o ponto crucial: ser continente não é ser alvo de violência constante. Muitas vezes, a busca por segurança de quem tem TPB pode se transformar em comportamentos de controle. Para evitar uma relação abusiva, você precisa estabelecer limites claros.

Além de representar proteção para a própria pessoa borderline, o limite é uma proteção para quem está do outro lado contendo essas emoções intensas, ainda que sejam positivas. Viver uma relação instável a todo momento pode ser uma experiência mais desgastante do que a usual. Portanto, os limites garantem certa estabilidade para uma relação minimamente prazerosa.

Se a pessoa portadora do transtorno faz terapia, essa função não fica apenas sobre as costas do parceiro(a) ou da família. Na realidade, é fundamental que a pessoa borderline tenha consciência do desgaste que seus comportamentos podem gerar e aceite com mais facilidade os limites.

O borderline na relação amorosa

Para que o relacionamento com o borderline prospere, a responsabilidade não pode cair apenas sobre um dos ombros, algo provável em razão dos estigmas que o transtorno carrega. O casal precisa aprender a jogar no mesmo time contra as dificuldades trazidas pelo transtorno, e não um contra o outro.

  • Validação mútua: Validar não é concordar com o comportamento, mas reconhecer a emoção por trás dele. Em vez de dizer “Você está exagerando”, tente “Eu entendo que você está sentindo medo agora, mas eu estou aqui”. Um simples abraço também representa validação e acolhimento.
  • Acordos e comunicação: Não tente resolver problemas no auge de uma crise (a fase da “montanha-russa”). Façam combinados quando ambos estiverem calmos, estabelecendo o que cada um precisa quando os ânimos se exaltarem.
  • O “tempo” saudável: Se a discussão escalar, torna-se fundamental ter a liberdade de pedir uma pausa para se acalmar, com a promessa clara de voltar ao assunto nos mesmo dia ou no dia seguinte. Isso evita que palavras cruéis sejam ditas no calor do momento.
  • Terapia de casal: Ter um mediador que entenda de TPB ajuda a traduzir o que cada um está sentindo sem que a conversa vire um campo de batalha.

Quando é hora de olhar para si?

A empatia é uma ponte, mas ela nunca deve exigir o sacrifício da sua própria identidade. Se o custo da relação for a sua saúde mental e você se perceber vivendo em um ciclo de toxicidade, saber se afastar não é falta de amor — é um ato de sobrevivência.

Importante: Se você convive com alguém com TPB, buscar terapia para si mesmo é fundamental. Isso ajudará você a diferenciar o que é seu e o que é do outro.


Filmes/séries sugeridos(as) sobre o tema:

  • Garota interrompida (1999).
  • Objetos Cortantes (2018).

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