No consultório, passo os dias do lado de quem pergunta, observa, sustenta o silêncio e espera o tempo necessário até que algo possa, enfim, ser dito.
Recentemente, porém, fui eu quem se sentou no sofá de quem responde. Estudantes de Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB) me convidaram para uma entrevista em duas partes, dentro de um trabalho acadêmico, e o que seria uma contribuição pontual virou uma das conversas mais estimulantes que tive nos últimos meses.
Depois de 26 anos de clínica, é fácil esquecer como soam as perguntas de quem está começando. Elas têm uma qualidade própria: ainda não caíram na rotina e carregam o interesse diante da complexidade do humano. Foi exatamente esse frescor que os alunos da UCB trouxeram e que me obrigou, com prazer, a colocar em palavras coisas que, na maior parte do tempo, apenas pratico.
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ToggleParte 1 — Violência intrafamiliar, abuso infantil e a clínica sistêmica
Na primeira parte do encontro, enfrentamos temas que exigem do clínico tanto técnica quanto coragem: a violência intrafamiliar e o abuso infantil. Conversamos sobre como o sofrimento da criança costuma se anunciar em silêncio, sustentado por uma rígida dinâmica de segredo que organiza a família inteira em torno do não dito.
Sob a perspectiva sistêmica, o genograma se torna instrumento para rastrear a transgeracionalidade do abuso, a forma como certos padrões se repetem, transmitidas de uma geração à seguinte. Identificá-los é o primeiro passo para interrompê-los.
Falamos também dos dilemas éticos que cercam essa atuação: o manejo cuidadoso na elaboração de relatórios destinados ao campo jurídico, as implicações emocionais e socioeconômicas que toda denúncia carrega e a necessidade de articulação com as redes externas de proteção: escolas, conselhos, órgãos de acolhimento. Já que, quando o silêncio se rompe, ele raramente começa a se romper dentro do próprio lar.
Assista à Parte 1:
Parte 2 — Terapia familiar, a evolução da prática e o mito da neutralidade
A segunda parte foi mais biográfica. Pude voltar às origens da minha formação, ainda muito jovem, no CEFAM (Centro Brasileiro de Estudos da Família), em Brasília, da pioneira professora Júlia Bucher. Lembrei do que foi começar a atender configurações familiares complexas aos 24 anos, com o apoio fundamental das psicólogas Sandra Baccara e Kívia Fernandes e por que, mesmo então, a clínica já se anunciava como uma escolha sólida.
Dali, a conversa caminhou para o presente: as transformações das famílias contemporâneas, as questões de gênero, as novas configurações que a prática encontra antes mesmo que a literatura consiga descrevê-las. Porque a clínica, quase sempre, anda mais rápido do que os livros.
E fechamos com um ponto que me é caro: a desmistificação da neutralidade. Não existe terapeuta que observe de fora. Ao intervir, ele já integra e influencia o sistema que atende (o que não pede um distanciamento frio, e sim um posicionamento firme, sustentado pela ética e pelo rigor técnico).
Assista à Parte 2:
O que aprendi (de novo) com quem está começando
Saí dos dois encontros com uma certeza renovada: a maturidade das perguntas daqueles estudantes diz muito sobre a qualidade da formação que estão recebendo e sobre o cuidado com os aspectos normativos da profissão.
Por isso, a recomendação que deixei a eles é a mesma que repito aqui: logo após a graduação, busquem espaços de co-visão e de prática assistida ao lado de profissionais experientes. É essa transição cuidadosa, e não a pressa, que constrói o manejo clínico seguro e a compreensão do que é, no cotidiano, sustentar um consultório.
Agradeço de coração o convite dos estudantes e a indicação do meu nome pela professora Angélica Gavaldão. O diálogo entre a universidade e a clínica veterana segue sendo um dos solos mais férteis de que dispomos para fazer a psicologia avançar.