O que o peso do seu filho tem a dizer sobre a sua família: transgeracionalidade, saúde emocional e vínculos invisíveis

Quando uma criança engorda, a primeira resposta costuma ser médica: endocrinologista, nutricionista, mudança de dieta. São passos necessários. Mas há uma pergunta que raramente é feita:

O que esse corpo está carregando que não é só seu?

Na perspectiva da Terapia Sistêmica, o sintoma de um membro da família raramente pertence apenas a ele. Ele é, muitas vezes, a expressão visível de uma dinâmica invisível, um padrão que atravessa gerações sem ser nomeado, sem ser visto, mas que se instala nos corpos, nos hábitos e nas relações.

O que é a obesidade sob a ótica da psicoterapia sistêmica

O psiquiatra norte-americano Murray Bowen foi um dos primeiros clínicos a sistematizar o que chamamos hoje de transmissão transgeracional: o processo pelo qual padrões emocionais, crenças, segredos e formas de lidar com o mundo são transferidos de geração em geração, em grande parte sem qualquer consciência.

Para Bowen, a família não é uma soma de indivíduos, é um sistema emocional regido por forças de coesão e diferenciação. Quando esse sistema não consegue metabolizar uma dor (um luto não elaborado, uma vergonha, um trauma), ele “passa adiante”. Às vezes na forma de conflitos repetitivos, às vezes na forma de doenças, às vezes na forma de um corpo que acumula.

Dois conceitos de Bowen são centrais aqui:

  • Diferenciação do self: a capacidade de um indivíduo de se posicionar como sujeito dentro do sistema familiar, sem se fundir nem se isolar emocionalmente.
  • Transmissão multigeracional: o processo pelo qual os níveis mais baixos de diferenciação tendem a se perpetuar, e a se intensificar, ao longo das gerações.

Transmissão transgeracional: por que o excesso de peso se repete na família?

Em minha trajetória como pesquisador em Brasília, observo um padrão recorrente em casos de obesidade infantil: a criança frequentemente ocupa um lugar de regulador emocional no sistema familiar.

Isso significa que seu corpo, e o ato de comer, cumpre uma função relacional. Ela come quando a casa está tensa, porque comida é o único espaço de afeto disponível ou porque, num sistema onde emoções não podem ser ditas, elas são comunicadas por meio do corpo.

Não se trata de culpa dos pais. Trata-se de causalidade circular: pais que também não aprenderam a nomear o que sentem, porque seus pais também não aprenderam. Uma cadeia silenciosa.

Mitos e segredos familiares na origem da obesidade

O conceito de lealdades invisíveis, desenvolvido por Ivan Böszörményi-Nagy e amplamente utilizado na abordagem sistêmica, nos ajuda a compreender como uma criança pode, inconscientemente, “herdar” o sofrimento de um antepassado como forma de honrar sua memória ou de manter um vínculo afetivo.

Nas entrevistas familiares que realizei, identifiquei avós que passaram por períodos de escassez, migrações forçadas, pobreza extrema, fome real. Nesses sistemas, guardar comida no corpo pode ser uma forma inconsciente de lealdade: “Não vou desperdiçar o que minha avó nunca teve.”

Esse padrão não é consciente. Não é racional. E não se resolve apenas com reeducação alimentar.


O que a terapia sistêmica oferece a essas famílias?

A intervenção sistêmica não trabalha sobre a criança. Trabalha com o sistema. Isso inclui:

  1. Mapeamento transgeracional (genograma): identificar padrões que se repetem ao longo das gerações por meio de doenças, perdas, segredos, migrações, rupturas.
  2. Ampliação da consciência relacional dos pais: compreender como suas próprias histórias emocionais participam do sintoma do filho.
  3. Criação de novos padrões de vinculação: substituir a comida como único veículo de afeto por formas mais diversas e conscientes de conexão.
  4. Diferenciação saudável: ajudar a criança e os pais a ocuparem lugares mais claros dentro do sistema, com fronteiras mais saudáveis.

Tratamento da obesidade em Brasília: a abordagem sistêmica

Não é por acaso que essa reflexão ressoa com tanta força em Brasília. Uma cidade planejada, fundada por famílias que migraram de todo o Brasil, muitas delas carregando histórias de deslocamento, ruptura e recomeço.

Muitas das famílias que chegam ao meu consultório em Brasília trazem, na própria trajetória, esse misto de promessa e perda. E os filhos, como antenas sensíveis, captam o que os adultos ainda não conseguiram dizer.

O corpo da criança, muitas vezes, é o primeiro que fala.

Se você reconhece algum desses padrões na sua família, considere que buscar terapia não é fraqueza, mas o primeiro gesto de diferenciação. Agende uma consulta.

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