casal em consultório

O que esperar da psicoterapia de casal?

Este texto pretende oferecer uma breve explicação sobre como funciona a psicoterapia de casal. O tema já foi abordado neste espaço em outra ocasião, quando esclareci que “quem faz terapia, não se separa” por causa da terapia, ao contrário do que algumas pessoas acreditam. Naquele texto, discuti as circunstâncias que levam muita gente a pensar dessa forma.

Vale lembrar que o Conselho Regional de Psicologia, no meu caso o CRP 1ª Região, orienta e fiscaliza o psicólogo no cumprimento do Código de Ética. Portanto, sob hipótese alguma o psicólogo deve induzir ou conduzir o seu paciente a tomar uma decisão como o divórcio. No máximo, orientar uma eventual vítima de violência a buscar proteção física e psicológica com o respaldo policial. Portanto, em casos de situações que possam causar danos ao bem-estar do paciente ou de outras pessoas, é dever do psicólogo fazer a denúncia ao órgão competente.

A ideia aqui será, a partir das queixas frequentes que se apresentam na primeira sessão, explicar como se desenvolve e qual a importância de estabeler com o casal o(s) objetivo(s) para a psicoterapia, traçar um panorama dos principais obstáculos e mostrar quais os caminhos possíveis (e prováveis) desse processo terapêutico.

Queixas frequentes na primeira sessão 

Partindo da sessão inicial, gostaria de listar as queixas mais frequentes que chegam ao meu consultório:

Ruídos na comunicação 

A queixa mais frequente no consultório são os ruídos na comunicação. É uma reclamação que surge, inclusive, em várias fases do casamento ou relacionamento. Desde dos namorados até os casais com casamentos de uma vida inteira.

A ideia é identificar os padrões disfuncionais, principalmente quando os níveis verbais e não verbais transmitem mensagens conflituosas. É um aspecto do relacionamento que requer muita prática para que haja evolução.

Falta de confiança 

Os ruídos de comunicação são uma queixa que pode ser entendida como um reflexo da falta de confiança. Quando o casal não nutre uma confiança recíproca, a comunicação tende a se tornar disfuncional. 

O que leva à falta de confiança pode ser um evento ou violações de valores que se agravam ao longo dos anos. Acordos mal elaborados e descumpridos são motivações para a perda da confiança, assim como o receio de lidar com conflitos.

Distanciamento e falta de afeto

Nos estágios mais avançados da crise conjugal, surge a queixa do distanciamento e da falta de afeto. De modo geral, uma das partes sofre mais com o distanciamento e, na maioria das vezes, é quem toma a iniciativa para conversar e tentar mudar o relacionamento.

A falta de afeto pode ser algo que acompanha o relacionamento desde o começo, como muitos reconhecem, mas passa a ser um sofrimento quando o casal perde a segurança no vínculo. Muitas vezes, há uma dificuldade de falar sobre isso porque representa uma exposição da vulnerabilidade.

Falta de companheirismo e de uma vida em comum

Essa queixa é mais do que isso, pois se trata de uma justificativa usada por muitas pessoas para a separação. A partir de um determinado momento da crise, é natural que muitos casais comecem a ter rotinas individualistas e essa mudança deve ser entendida como um sinal de alerta.

Aqui cabe discernir os momentos individuais da rotina individualista. Os momentos individuais são importantes e necessários, mas a rotina individualista costuma representar um desencontro na relação. É provável que nesse estágio exista um prejuízo maior na comunicação e na confiança.

Uma vez conhecidas as queixas do casal, é importante definir qual o objetivo da psicoterapia.

Objetivos da psicoterapia de casal

Após escutar pacientemente os dois e obter alguma clareza em relação às queixas do casal, já é importante encaminhar a discussão para os objetivos da psicoterapia.

Os objetivos representam um norte para o casal e o próprio terapeuta. Podem ser revistos na segunda ou em qualquer outra sessão, sempre que houver necessidade. Também é possível que cada um queira um objetivo diferente. Nesse caso, o terapeuta deve trabalhar para contemplar os dois lados ao definir os objetivos.

Contudo, uma psicoterapia pode levar algumas sessões até que se consiga definir o seu objetivo. Não é raro que o casal busque ajuda numa situação emergencial, em que a crise seja aguda a ponto de não haver comunicação sem um mediador. Nesse caso, definir o objetivo não é uma prioridade ou, em outras palavras, podemos pensar que administrar a crise já é o objetivo da intervenção do terapeuta.

De toda maneira, conhecer as queixas e definir um objetivo são dois passos que estruturam o trabalho a ser realizado, trazendo mais segurança para todos. Com base nas queixas, podemos imaginar quais são os obstáculos e desafios da psicoterapia de casal.

Principais obstáculos para os casais

Tendo em vista as queixas mais frequentes na psicoterapia de casal, podemos relacionar vários obstáculos associados a elas:

  • Necessidade de ver a mudança no outro para dar esse passo.
  • Ficar preso no padrão de acusações e ressentimentos.
  • Apontar a diferença como motivo para justificar o distanciamento.
  • Resistência para abandonar a dinâmica disfuncional.
  • Manter o foco sobre o problema de uma terceira pessoa e deixar a relação de lado.
  • Desinteresse e falta de disposição para o diálogo

Quais os caminhos possíveis?

Diante dos obstáculos que se colocam diante do casal, podemos pensar em vários caminhos, mas nem todos são possíveis, já que os dois esbarram nos próprios limites. Particularmente, conhecer os limites é um ponto que eu considero fundamental para saber por onde seguir. 

É importante ressaltar que os dois precisam demonstrar uma certa coragem e disposição para encarar os desafios. Como eu mencionei em outro texto, muitas vezes essa é a maior expressão de amor.

Dessa forma, mudar é um processo doloroso e para renascer é necessário ter coragem, junto ou separado. Enfrentar o desconhecido envolve medos e incertezas. Não há garantias no processo terapêutico e, por isso, ter fé na transformação é a chave para o bom resultado. O risco de ficar pelo caminho fica evidente a cada obstáculo. Não posso respeitar menos aqueles que decidem desistir, pois é um movimento igualmente difícil.

Espero ter oferecido um panorama mais fiel acerca de como funciona uma psicoterapia de casal, além de uma perspectiva mais prática quando mencionei queixas, obstáculos e caminhos que acompanhei no curso da minha trajetória de 26 anos atendendo esse público.

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