Vladimir Melo · Psicologia Clínica

Prioridades e limites são fundamentais

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Silhueta de homem equilibrando-se em uma corda bamba ao entardecer

A experiência clínica ao longo dos dois primeiros anos da pandemia me mostrou com mais clareza a importância dos limites.

Priorizar-se não é egoísmo

Mas antes de falar de limitesNa terapia familiar estrutural, fronteiras são regras que definem quem participa de cada interação e de que modo, regulando contato, informação, afeto e autonomia entre pessoas, subsistemas e a família e seu contexto., é preciso falar de prioridades. Priorizar-se, atualmente, confunde-se com egoísmo. Frequentemente, pacientes me perguntam se isso não é errado, se não vai levar ao fim do casamento ou da família. Essa concepção de que a vida em família ganha reverência pelo sacrifício ganhou força como uma interpretação da missão de Jesus Cristo, o cordeiro de Deus, que se sacrificou para redimir a humanidade dos seus pecados.

O cristão, apesar de consciente dos seus pecados, deve assumir sacrifícios com aqueles que ama, e isso inclui os desconhecidos. Isso tem início na família de origem, renova-se no casamento e se prolonga com a dedicação aos filhos. Se possível, deve ocorrer também na relação com a comunidade, com o outro de modo geral, por meio da caridade, por exemplo. Além da fé em Cristo como salvador, esse é o caminho à nossa redenção e que nos garantirá um lugar no paraíso.

Mais limites, menos exaustão

Portanto, buscar um tempo para si mesmo ou falar de autocuidado tornou-se um defeito de caráter para um sujeito que deve, antes de pensar nele, dedicar-se à esposa ou ao marido, aos filhos, aos pais, aos amigos, ao trabalho e ao outro. Evidentemente, a partir dessa concepção jamais encontrará tempo para si e, na busca por atender as demandas afetivas e sociais, precisará sempre ultrapassar seus limites. Estamos falando do ser humano do século XXI, que está a um passo do esgotamento, pressionado pela autoexploração em todos os aspectos sob o pretexto de que isso representa o sucesso, como bem descreve o filósofo Byung-Chul Han. Estamos a todo momento ameaçados pela sombra do fracasso, de se tornar um "loser" (perdedor). Tolera-se cada vez menos o erro.

Retomando a questão dos limites, para pensarmos em estabelecer limites, devemos partir do autoconhecimento. Cada um tem os seus limites, não se trata de uma receita de bolo e nenhum livro pode ensinar muito a esse respeito. Com certeza, a nossa experiência é útil, pois todos somos capazes de reconhecer onde e quando excedemos esses limites e qual o preço que pagamos por isso.

Esse autoconhecimento fica fora de alcance quando não nos permitimos nos priorizar, porque falta tempo para nos conhecer e, assim, conhecer os nossos limites. O aforismo grego "conhece-te a ti mesmo" parece uma narrativa condenada pela mentalidade consumista em que vivemos. O símbolo da satisfação ou felicidade está na sua capacidade de consumo e o seu limite é apenas um número: o limite do seu cartão. Estamos capturados pelo sonho capitalista inalcançável, uma vez que nossos sonhos têm uma obsolescência programada. Sempre se renovam antes de serem atingidos.

O indivíduo saudável sustenta a família

Os efeitos de se priorizar e estabelecer limites são claramente observados na clínica que pratico. Na minha experiência clínica, não vi uma separação conjugal em que o problema fosse limites definidos com clareza; o padrão que observo é o oposto. A falta de limites ou de individualidade se mostrou um fator importante para que várias relações chegassem ao fim durante a pandemia. Essa é uma tendência que reconheço com frequência na clínica, não uma conclusão fechada da pesquisa em psicologia. Encontrar um espaço para si mesmo tem sido a solução e não o problema nesse contexto atual. É preciso mudar a narrativa e começar a observar quais outros fatores representam obstáculos para esse autodesenvolvimento. É preciso reconhecer relações em que existem controle, ansiedade, insegurança, codependência (seja pelo medo de abandono ou outra questão) e livrar de qualquer culpa a busca pelo caminho individual. Não há uma concorrência entre os caminhos individual e o familiar. O indivíduo saudável é o pilar da família.

Há relações em que sustentar limite exige um cuidado ainda maior. Em Amar sem se perder com um borderline, trato de como manter o vínculo sem se dissolver nele quando a intensidade emocional é a regra.

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