Anthony Robbins, o guru ególatra e midiático

Quando vi que o Netflix disponibilizou o filme “Tony Robbins: Eu não sou seu guru”, fiquei bastante curioso para entender melhor como funciona o trabalho do coach mais vendido do mundo. O filme retrata os bastidores e todos os seis encontros realizados num evento anual promovido por Robbins, que custa aos participantes aproximadamente 5 mil dólares. 

O evento ocorreu numa estrutura luxuosa e ampla, com a participação de 2.500 pessoas e, pela primeira vez, contou com uma megaprodução televisiva. O filme, narrado pelo próprio Robbins, retrata a rotina do coach com toda a extravagância que o cerca.

O perfil do guru

De acordo com a Wikipédia, Anthony Robbins tem 58 anos de idade e já ofereceu seus serviços de coaching para celebridades como a Princesa Diana, Bill Clinton, Serena Williams, Hugh Jackman, entre outros. Trabalha ao lado de uma renomada terapeuta familiar, Cloé Madanes, com quem fundou o Robbins-Madanes Training com o intuito de formar coaches. Estima-se que ele receba aproximadamente 6 bilhões de dólares por ano das vendas dos seus produtos.

O filme começa com um rapaz diante de Tony Robbins falando do seu sofrimento no meio de uma multidão. A condição desse rapaz ilustra bem a fragilidade de todas as outras pessoas que interagem diretamente com Robbins nesses encontros, assim como a atitude do guru. De modo geral, o coach usa uma linguagem direta recheada de palavrões e com alguns toques de humor. Isso faz dele firme e ao mesmo tempo afetuoso, admirado por todos que o cercam. Pode-se afirmar, sem incorrer em riscos, que o filme não tem uma perspectiva crítica e serve como produto para promover a imagem do coach.

Antes da qualquer intervenção, Robbins faz uma interpretação da fraqueza do seu ou sua cliente, o que geralmente está ligado a uma tentativa de satisfazer as expectativas alheias e corresponder ao amor dos pais. A intervenção é focada na mudança imediata despertada por uma espécie de fé em si mesmo. Neste ponto, a “pregação” dele é extremamente semelhante a de um pastor e, em instantes, ele parece operar um milagre. Logo em seguida, a música sobe de volume e as pessoas visivelmente emocionadas começam a aplaudir e a abraçar o cliente que compartilhou a sua história. Um espetáculo catártico.

Em determinados momentos, Robbins também faz depoimentos sobre a vida pessoal, inclusive da conturbada relação com a mãe, e quais as estratégias que desenvolveu para superar as dificuldades da sua história de vida. 

Afinal, o que faz o guru?

A julgar pelas histórias de vida dos participantes e do que eles buscam nos encontros com Robbins, podemos afirmar que o trabalho que ele realiza é psicológico. O coach se orgulha de realizar transformações nas vidas de quem o procura, mas as promessas são de mudanças instantâneas. Para isso, ele trabalha com técnicas de Programação Neurolinguística (PNL) sem ponderar devidamente que as transformações, quase sempre, são processos lentos e árduos.

A forma como Robbins trabalha, na melhor das hipóteses, poderia ser definida pelos psicanalistas como “análise selvagem”, quando o terapeuta faz uso dos seus conhecimentos para realizar intervenções atropeladas e sem critérios. Entretanto, Robbins não é psicólogo e, por isso, tenho dúvidas (ou não) se ele seria capaz de realizar o trabalho a que se propõe com a responsabilidade ética necessária. A partir daí, é possível considerar suas intervenções abusivas, pois Robbins se aproxima de pessoas extremamente fragilizadas e propõe atitudes constrangedoras na frente de milhares de expectadores. O humor e o afeto utilizados mitigam a violência de suas propostas e, instantes depois, ele solicita à pessoa que se encontra diante dele que fale sobre o poder dessa transformação milagrosa.

O filme mostra claramente, por meio de reuniões e esboços, que Robbins e sua equipe montam roteiros de como o show deve ser conduzido. O ritual da sua entrada no palco é um episódio à parte, digno de um astro de rock, e a todo momento a bondade e o amor de “Tony” são enfatizados pelos assistentes e participantes. Essas virtudes, sem dúvida, conferem legitimidade à falta de conhecimento e responsabilidade de suas intervenções. Em momento algum, as pessoas estão no centro do processo terapêutico, mas sempre a atitude sábia, revolucionária e empática de Robbins.

A dramatização no filme ganha um ritmo crescente e alcança o apogeu nos últimos dias. Em certa ocasião, Robbins sugere a um participante que abandone a postura infantil e seja um homem forte como um leão, levando-o a rugir como o animal. Aquele comportamento é celebrado pelos presentes de maneira eufórica e, a partir de então, parece que a transformação psicológica foi consumada. No sexto dia, ele formula uma espécie de mantra de autoafirmação que deve ser entoado por cada um em voz alta e com convicção. 

Cure o menino e o homem aparecerá.

– Tony Robbins

O mercado terapêutico

Não é de hoje que o profissional de saúde mental disputa mercado com todos os tipos de artistas, sacerdotes, charlatões etc. No entanto, encontramos em Tony Robbins um pouco de tudo isso, mas principalmente turbinado pelo domínio da tecnologia midiática. A propaganda da plataforma Netflix é um poder contra o qual um profissional de saúde jamais poderá competir, ainda mais se prezar pelo seu código de Ética.

De modo geral, as pessoas enxergam muitas vantagens no evento de Robbins, pois podem resolver dar início a uma transformação milagrosa sem passar pelo processo lento de uma psicoterapia. Uma das pessoas ajudadas pelo coach é uma brasileira, vítima de abuso sexual durante a infância, que recebe o convite ao final do discurso de Robbins para realizar uma formação no seu centro. Ele se identifica com a história da mulher e identifica nela um potencial terapêutico como meio para a cura, ou seja, ela deve se curar curando os outros, método amplamente contraindicado no ambiente de formação da psicologia.

O mito da cura instantânea é um fenômeno que não vai desaparecer nunca, provavelmente. Apenas passará por atualizações, cada vez mais tecnológicas e renovadas por um discurso de fé em si mesmo. Como o guru não precisa de uma formação profissional, e sim uma performance suficientemente convincente, teremos que lidar cada vez mais com os efeitos colaterais dessas situações. Ninguém retrata a decepção e a dor daqueles que descobrem, depois de tanto investimento nesses gurus, que o sofrimento não desaparece tão facilmente. A luta constante ao longo da vida é o que marca um grande número de pessoas com transtornos mentais.

Espero que o filme não seja assistido com uma fé cega pelos assinantes do Netflix, mas que seja visto como um exemplo de propaganda da indústria cinematográfica para promover esse tipo de terapeuta.